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'Despacito' não sai da sua cabeça? Ciência explica o sucesso das músicas-chiclete

Pode ser que a canção te agrade. Ou não.

Mas a ciência ajuda a explicar por que Despacito, dos porto-riquenhos Luis Fonsi e Daddy Yankee, parece "grudar" na memória de quem a escuta.

Estudos na área de neurociência e psicologia encontraram certos elementos em comum nas chamadas "músicas-chiclete".

"A música ativa as áreas do cérebro relacionadas com sons e movimentos, mas também as associadas às emoções e recompensas", explica Jessica Grahn, cientista da Universidade do Oeste de Ontario, no Canadá, à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Especialista em estudos ligados à música, Grahn conta que as canções que geram maior comunicação entre as áreas do cérebro ligadas ao som e às emoções são as que mais agradam.

Mas como fazer essa conexão?

'Guloseimas' para o cérebro

Não há uma fórmula mágica, mas certos elementos funcionam como "guloseimas" para o cérebro.

O primeiro ingrediente é o ritmo. Quando uma canção tem uma batida fácil de seguir, como é o caso de Despacito, ela aumenta a atividade cerebral na zona associada ao movimento, segundo experimentos. Mesmo se a pessoa está totalmente quieta.

Em geral, as canções pop a que estamos expostos têm ritmos familiares, o que até certo ponto é previsível. Essa característica, diz Grahn, funciona como uma espécie de recompensa para o cérebro, pois é agradável que a canção se desenvolva como pensamos que vai ocorrer.

A "mágica", porém, ocorre quando a canção inclui algum elemento que fuja do previsível.

"Trata-se usar a batida, mas fazê-la mais interessante com alguma novidade. Fazer a canção interessante, mas sem tirar muito do que esperamos ouvir", afirma a cientista.

Nahúm García, um produtor de música espanhol, acredita ter encontrado o pequeno detalhe que tornou Despacito algo especial.

"Vocêm riem de 'Despacito', mas a maneira como o ritmo quebra antes do refrão é uma genialidade", escreveu ele em sua conta no Twitter.

Gráfico geito por Nahúm GarcíaDireito de imagemNAHÚM GARCÍAImage captionCom este gráfico, Nahúm García explica, em espanhol, a 'magia' de 'Despacito': há uma quebra no ritmo

Ruptura

García se refere ao que acontece após 1m23s de canção, momento em que a melodia para e Fonsi diz pela primeira vez a palavra despacito (algo como "devagarzinho" em espanhol).

É quase imperceptível, mas o fraseado "atravessa" o ritmo durante uma parada da batida.

"A ruptura é radical e faz alusão a intenção sexual da letra (que contém um pedido de ritmo mais lento para o ato), criando uma unidade entre intenção e efeito", disse García em sua página no Facebook.

"O cérebro se dá conta de que houve uma parada incomum, e isso chama a atenção."

Segundo García, esse truque não é muito comum na música pop. Mas... por que esse efeito ocorre apenas na entrada do primeiro refrão?

"Se usado de novo, pode cansar", acredita o espanhol. "Não se pode quebrar o ritmo de uma canção muitas vezes, porque isso resulta em um esforço para o cérebro."

Daddy YankeeDireito de imagemEPA/JJ GUILLENImage captionTopo das paradas em 45 países. Daddy Yankee só pode mesmo sorrir

Canção-chiclete

Psicólogos e cientistas chamam canções-chiclete de "vermes de ouvido". O termo foi criado por James Kellaris, compositor e professor de marketing da Universidade de Cincinnati, nos EUA, e cujos estudos têm como tema a influência da música sobre consumidores.

Kellaris argumenta que os "vermes" são normalmente canções repetitivas e pouco complexas seja em ritmo, letra ou ambos.

Mas outra característica é justamente que a canção conte com elementos inesperados, como um compasso irregular ou um padrão de melodia pouco usual.

"Despacito tem elementos de um 'verme'. É animada, simples, repetitiva e tem um ritmo pegajoso", diz Kellaris.

Mas o especialista americano menciona outros elementos que ajudam a explicar o sucesso, como o atraente vídeo ou o nível de exposição que as pessoas tiveram à canção.

O êxito é inegável: Despacito já encabeçou as paradas de sucesso em 45 países e se tornou a primeira canção em espanhol a chegar ao posto de número da revista americana de música Billboard desde 1996, quando Macarena tomou o mundo de assalto.

O vídeo da música já ultrapassou a impressionante marca de 1 bilhão de visualizações no YouTube.

 

BBC

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Cortes na ciência geram êxodo de cérebros, congelam pesquisas e vão ‘penalizar’ Brasil por décadas, diz presidente da academia

Os pesados cortes de recursos para a área de ciência e tecnologia feitos pelo governo federal estão levando a produção científica brasileira a um "estado terminal", interrompendo pesquisas, acelerando o êxodo de cérebros e gerando uma lacuna que "vai penalizar o Brasil por décadas", afirma o presidente da Academia Brasileira da Ciências (ABC), Luiz Davidovich.

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o físico carioca alerta para as grandes perdas trazidas pelo corte dramático imposto pelo governo Temer ao orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia e Comunicações em março deste ano, levando a verba para ciência ao patamar de 12 anos atrás.

O corte de 44% no orçamento para 2017, de R$ 5,8 bilhões para R$ 3,2 bilhões, repercutiu internacionalmente, deixando cientistas brasileiros "horrorizados", segundo artigo na prestigiosa revista científica Nature.

"Espanta-me que justamente em uma época de crise tão grave, não se dê atenção à porta de saída da crise, já descoberta por outros países há muito tempo. É pesquisa e desenvolvimento, é ciência e inovação tecnológica. Nós estamos indo na contramão dessa consciência internacional", afirma Davidovich, citando países como China, Cingapura, Coreia do Sul e membros da União Europeia como exemplos.

Em entrevista à BBC Brasil, o físico disse que laboratórios estão sendo forçados a interromper pesquisas por falta de dinheiro, que a fuga de cérebros está se acelerando e que o cenário sombrio é um desestímulo para jovens que cogitam ou poderiam cogitar uma carreira científica.

Davidovich ressalta que a produção científica depende de continuidade e envolve uma corrida constante com outros países.

"Se você quer construir uma estrada e o país enfrenta uma crise financeira, você pode atrasar a obra. Ciência e tecnologia você não pode atrasar, porque perde a corrida. Você não tem como recuperar o atraso", alerta.

Luiz DavidovichDireito de imagemARQUIVOImage captionLuiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira da Ciências

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil: O senhor tem sido muito enfático em relação aos danos causados pelos cortes no orçamento científico do país. Qual foi a dimensão desses cortes?

Luiz Davidovich - A crise está geral no Brasil, mas na parte de ciência e inovação tecnológica houve um corte muito grande em cima de orçamento que já era pequeno. Em 2013, tivemos um pico no orçamento, mas desde então começou a haver cortes sucessivos.

Em março, houve um corte de 44% em todos os ministérios, exceto nos da Educação e Saúde, que têm seus orçamentos protegidos pela Constituição.

Um governo que aplica um corte linear em todas as áreas mostra que não tem prioridade, não tem agenda nacional. Isso contrasta com a posição de outros governos, de países com grande ímpeto desenvolvimentista, como China, EUA, Israel, União Europeia, Coreia do Sul.

BBC Brasil - Qual é a posição adotada por esses países?

Davidovich - Em épocas de crise, eles aumentam o investimento em pesquisa e desenvolvimento. A União Europeia chegou a um acordo pelo qual pretende destinar 3% do PIB a pesquisa e desenvolvimento (P&D) até 2020. Nos EUA, até o ano passado, se aplicava em torno de 2,7% do PIB em P&D. A China está com crescimento desacelerado, mas ao mesmo tempo está investindo mais em pesquisa. Em plena crise, o primeiro-ministro (Li Keqiang) anuncia que vai aumentar o investimento em pesquisa básica em 26%.

O que isso significa? Esses países entendem que o investimento em pesquisa é a melhor maneira de sair da crise de forma sustentável. Contribui para aumentar o valor agregado de seus produtos e aumentar seu protagonismo.

Enquanto isso, o Brasil está fazendo o quê? Está retraindo os investimentos, cortando violentamente. A ponto que chegamos a um estado terminal. É S.O.S. para a ciência no Brasil. Chegamos a um ponto em que equipes estão sendo fechadas e encerrando os seus trabalhos.

Espanta-me que justamente em uma época de crise tão grave, não se dê atenção à porta de saída da crise, já descoberto por outros países há muito tempo. Nós estamos indo na contramão dessa consciência internacional.

BBC Brasil - Mas o Brasil está tentando sair da recessão mais grave em décadas. Dá mesmo para comparar a situação aqui com países como China, Coreia do Sul ou Israel?

Davidovich - Nos anos 1990, a Coreia do Sul era considerada mais atrasada que o Brasil. Mas o país investiu pesadamente em ensino básico, ensino técnico e pesquisa e desenvolvimento, apoiando grandes empresas, e passou à nossa frente. Eles têm cinco escolas nacionais para formar professores de ensino fundamental. A profissão de professor é valorizada, com salário compatível com o de outras profissões graduadas.

A Eslováquia, nos anos 1990, passou por problemas políticos e econômicos tremendos. Eles fizeram reformas econômicas importantes, mas ao mesmo tempo resolveram apostar na inovação. Hoje estão muito à nossa frente no Índice Global de Inovação.

O Brasil está em 69º lugar no índice, atrás do México, da Rússia, da Índia e da África do Sul. A Eslováquia está em 34º lugar. Decidiu investir no que se chama hoje de deep tech - as tecnologias profundas, que revolucionam nosso cotidiano - e se tornou um polo de inovação. Em muito pouco tempo, superou a crise de maneira inteligente, e hoje está aí, concorrendo no mercado global.

BBC Brasil - Mas vemos no Brasil uma crise generalizada, com falta de recursos para todas as áreas, seja ciência ou cultura. O senhor defende que a ciência e tecnologia mereçam tratamento diferente?

Davidovich - Essa questão de não ter dinheiro é discutível, porque se você olha para os acordos que estão sendo costurados no Congresso, para que os deputados votem a favor da reforma da Previdência, eles vão custar muito caro. O BNDES já está revendo a política de parar de conceder créditos subsidiados para empresas. Mesmo no auge dessa crise, os lucros dos bancos continuam aumentando.

Há recursos no sistema. A questão é como eles estão sendo usados. A questão é de escolha de prioridades.

Agora, por quê empregar recursos em ciência e tecnologia e não em outras áreas? Por que essa área merece uma atenção especial? Porque investir em ciência e tecnologia permite mudar o padrão de produtos de um país. Permite que países que sobrevivem da exportação de commodities, como o Brasil, passem a contar com uma pauta de exportação com produtos de alto valor agregado. É uma opção que permite gerar mais recursos para o país, para dar a volta por cima da crise.

BBC Brasil - Onde a situação é mais grave?

Davidovich - Nos Estados que enfrentam crises financeiras, como o Rio, porque neles as fundações estaduais de amparo a pesquisa também estão com problemas. Nesses Estados, a situação é de terror.

No Rio, por exemplo, você tem laboratórios que fazem trabalhos extremamente importantes e de repercussão internacional, como as pesquisas feitas na UFRJ sobre o vírus Zika e microcefalia. As contribuições foram publicadas nas melhores revistas internacionais e estão no caminho correto de encontrar meios de debelar essas doenças, mas os pesquisadores estão enfrentando problemas. Há pesquisas muito importantes sobre doença de Alzheimer que também estão com sérios problemas.

Esses grupos precisam de insumos biológicos para fazer seus experimentos, mas não há mais recursos para esses insumos. Com isso, os laboratórios estão parando. E param também as teses que estão sendo desenvolvidas, os trabalhos de mestrado e de doutorado que se destinam a formar os pesquisadores de amanhã, aqueles que, no futuro, vão combater as epidemias emergentes, como a zika, ou agora a febre amarela.

O risco que o país está correndo é de termos um gap na formação de cientistas e de não termos pesquisadores que possam atacar problemas que afetam a saúde da população nos próximos dez, 15 anos.

Mosquito transmissor da zikaDireito de imagemROBERTODAVIDImage captionPesquisa do vírus Zika já está prejudicada devido à crise, segundo Davidovich

BBC Brasil - Já há um claro impacto da crise econômica e do corte de recursos sobre a fuga de cérebros, motivando pesquisadores a deixar o país e buscar refúgio em países e universidades onde consigam verba para desenvolver seus trabalhos?

Davidovich - Esse processo está muito acelerado. Há dois meses, quando jornalistas me perguntavam se estava havendo êxodo de cérebros, eu dizia: "Tem um ou outro caso, mas as pessoas ainda estão esperando para ver se melhora". Há apenas dois meses.

As pessoas estão claramente optando por sair do Brasil. Estou em contato com equipes do Rio que estão perdendo metade de seus pesquisadores.

Agora não. As pessoas estão claramente optando por sair do Brasil. Estou em contato com equipes do Rio que estão perdendo metade de seus pesquisadores. Colegas estão dizendo que vão sair porque não têm mais condições de continuar a pesquisa. Até aqui, usavam insumos que tinham comprado antes. Agora, acabaram os insumos.

Quem trabalha com física, por exemplo, que é a minha área, usa laser nos laboratórios. Laser tem uma vida média. Se ele queima, acabou o experimento. E aí acabam as teses realizadas nesses laboratórios. Isso já está acontecendo.

BBC Brasil - Que efeitos o senhor acha que isso trará para o país no futuro?

Davidovich - Talvez o problema mais sério, e que já estamos detectando, é como isso afeta os jovens. Quando alunos veem que seus professores, como os da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), duramente afetada pela crise estadual, estão sem receber salários e com dificuldade de pagar as contas mensais, eles começam a pensar: "Essa profissão é complicada. O pessoal não tem recursos. Não vou querer ser professor universitário ou pesquisador. Vou procurar outra coisa". Passam a considerar que a área é pouco prestigiada e que o governo não se interessa por ciência.

Isso está dificultando a atração de jovens para a pesquisa. E o Brasil precisa muito desses jovens. Porque temos grandes desafios. Temos uma matriz energética que é uma das mais limpas do mundo, temos sol, temos água, temos biomas que têm produtos de biodiversidade a descobrir.

Conhecemos apenas 5% de nossa biodiversidade. Explorar isso significa poder fazer remédios e usar uma capacidade e uma vantagem competitiva do Brasil. Nós temos essa biodiversidade, os outros não têm. E precisamos usá-la de forma sustentável, sem destruir a floresta, de modo a fazer medicamentos e produtos de alto poder agregado. Para isso precisamos de mais pesquisadores.

Protesto da UerjDireito de imagemTOMAZ SILVA/AGÊNCIA BRASILImage captionProlongada crise na Uerj pode ter repercussões na decisão de pesquisadores de seguirem rumos fora da pesquisa ou do país

BBC Brasil - O Brasil passou por um momento de euforia na última década que foi acompanhada por um aumento expressivo nos investimentos na área de pesquisa e ciência. Quando a situação começou a se deteriorar?

Davidovich - Os cortes começaram já no governo da Dilma (Rousseff). Nós protestamos contra, a ABC, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Quando o governo mudou (e o presidente Michel Temer assumiu), os cortes continuaram. Com o agravante de que houve a agregação do antigo Ministério de Comunicações ao Ministério de Ciência & Tecnologia. Na época, foi dito que isso traria mais recursos, pela importância política da pasta das Comunicações, mas o efeito foi o contrário.

Se você quer construir uma estrada e o país enfrenta uma crise financeira, você pode atrasar a obra. Ciência e tecnologia você não pode atrasar, porque perde a corrida.

Depois dos últimos cortes, o orçamento do novo MCTIC passou a ser de R$ 3,2 bilhões de reais. Muito bem. Destes, R$ 700 milhões são para a parte de Comunicações, e que deixa R$ 2,5 bilhões para ciência e tecnologia.

Em 2010, o orçamento do ministério, corrigido pela inflação, equivalia a cerca de R$ 10 bilhões. Ou seja, o orçamento de hoje é da ordem de ¼ do que tínhamos em 2010.

Isso mostra uma falta de rumo do governo, ou então um rumo que está na contramão do que está acontecendo internacionalmente. Isso vai penalizar o Brasil nas próximas décadas.

BBC Brasil - Qual é o efeito da ruptura gerada pelos cortes sobre a produção científica? A dinâmica de uma pesquisa permite que seja interrompida e retomada?

Davidovich - A produção científica depende de continuidade. No mundo de hoje, se você para, você perde a corrida, porque os outros não estão parando. Aliás, não basta nem correr, você precisa correr mais rápido que os outros.

Se você quer construir uma estrada e o país enfrenta uma crise financeira, você pode atrasar a obra. Ciência e tecnologia você não pode atrasar, porque perde a corrida. Você não tem como recuperar o atraso. Por isso que, em plena crise, esses países que mencionei aumentam investimento em pesquisa. A China está aumentando. E com isso está ganhando protagonismo internacional, o que nós estamos perdendo. O quadro é dramático.

Se você interrompe uma pesquisa de biologia, você perde a prioridade. Outros países vão obter a patente. E depois nós vamos pagar pelas patentes que eles estão obtendo.

BBC Brasil - Mas o Brasil nunca conseguiu ser uma potência na área científica. O país tem condições de disputar dessa corrida mundial? Nos momentos de maior euforia, quais foram os principais avanços nessa disputa?

Davidovich - Já tivemos momentos melhores. Os primeiros dez anos do século 21 foram auspiciosos, com mais verba para pesquisa. Mas sempre enfrentamentos altos e baixos. Sempre enfrentamos descontinuidade no apoio à pesquisa. E mesmo com esse apoio bastante incerto, flutuante, sujeito a interrupções, a ciência brasileira conseguiu coisas fantásticas no cenário mundial.

A Petrobras ganhou prêmios internacionais na exploração de petróleo em águas profundas, isso através de uma cooperação muito forte com várias universidades brasileiras, envolvendo um grande leque de profissionais. A Embraer ocupa um nicho importante no mercado internacional de aviões. Uma empresa nascida em Santa Catarina, em cooperação com o departamento de engenharia mecânica da UFSC, transformou-se na maior empresa de compressores do mundo. São muitos exemplos de sucesso de empresas brasileiras com base científica.

Apesar de todas essas interrupções e dificuldades, isso demonstra a capacidade de invenção e a criatividade da ciência brasileira. Imagine o que não poderíamos fazer se houvesse uma política de estado de apoio à pesquisa e desenvolvimento, um fluxo contínuo que não sofresse altos e baixos dependendo de quem está no poder. Nós poderíamos ter ido muito mais longe.

Se você interrompe uma pesquisa de biologia, você perde a prioridade. Outros países vão obter a patente

BBC Brasil - E essa falta de continuidade gera prejuízos para a economia do país no futuro, a seu ver?

Davidovich - É importante o país ter uma dianteira em pesquisas para fazer economia no futuro. Faremos economia por não ter que pagar pelas patentes e ganharemos mais recursos porque teremos qualificado a nossa pauta de exportações.

É questão até de soberania nacional e econômica. Quando você aumenta o valor agregado dos produtos exportados, você passa a ter mais controle sobre a sua própria economia.

Se você considera, por exemplo, a agricultura, que é uma fonte de riqueza tão grande para o país. Parte disso é graças à ciência brasileira, que descobriu um processo para aumentar a produtividade da soja em quatro vezes. Na mesma superfície de terra, você colhe quatro vezes mais grãos. Algumas décadas atrás, soja não florescia no Mato Grosso. Com a ciência brasileira, passou a ser uma das grandes riquezas do Estado.

A agricultura é uma fonte de riqueza tão grande para o país. Parte disso é graças à ciência brasileira, que descobriu um processo para aumentar a produtividade da soja em quatro vezes.

Mas hoje, centros de pesquisa de prestígio nessa área, como a Universidade de Viçosa e a Embrapa, estão com dificuldades. Há duas décadas, a Embrapa contava com equipamentos para pesquisa que eram o estado da arte. Hoje estão defasados, e a própria agricultura está ameaçada pela falta de renovação de equipamentos e de investimentos em pesquisa.

Na África os avanços brasileiros na produção de soja já são conhecidos, e a China está comprando muita terra no continente. E se passarem importar soja de lá, que é muito mais perto?

Se não houver inovação constante até na área de commodities, estamos jogando um jogo muito arriscado. Se você para de atualizar a produção com ciência e tecnologia, ela fica obsoleta. Porque é uma corrida, e temos que nos atualizar sempre.

LaboratórioDireito de imagemFIOCRUZ/PETER ILICCIEVImage captionOrçamento enviado ao Congresso para 2018 destina ainda menos recursos para ciência e tecnologia

BBC Brasil - Como o senhor vê o impacto da aprovação da emenda constitucional que estabelece um teto de gastos públicos para o governo federal ao longo dos próximos 20 anos? Que impacto terá para a ciência?

Davidovich - É um grande equívoco, um trágico equívoco, considerar que recursos para ciência são gastos. Eles são investimentos. É muito importante fazer essa diferenciação. Se você considera que são gastos, corre o risco de o país ficar paralisado. Você estabelece o teto de gastos, mas não consegue mais aumentar o PIB, porque ele dependeria de investimentos que você não poderá fazer.

É um grande equívoco, um trágico equívoco, considerar que recursos para ciência são gastos

É muito preocupante que a ciência esteja dentro do teto de gastos. Pior ainda, o orçamento enviado pela equipe econômica para o Congresso para 2018 agrava ainda mais a situação do ano que vem, com ainda menos recursos para ciência e tecnologia.

Isso reflete a ignorância de quem está conduzindo a política econômica em relação ao papel da ciência e tecnologia para o desenvolvimento do país. Essa é a saída, essa é a luz no final do túnel.

BBC Brasil - O senhor vê alguma perspectiva de melhora no momento atual?

Davidovich - Está difícil ver a luz no fim do túnel. É claro que a gente considera que a saída para o Brasil está na ciência, na inovação tecnológica e na educação de qualidade para todos. Esse foi o segredo da Coreia, de Israel, de Cingapura.

Não existe um milagre coreano. Existe uma política que eles implementaram dando uma importância muito grande para educação básica, formando técnicos e promovendo inovação tecnológica. É isso. Não tem mistério.

 

BBC

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Para onde está indo o iceberg gigante que acaba de se separar da Antártida?

Já era anunciado há meses e acabou de acontecer: um iceberg gigante de quase 6 mil km² se descolou da Antártida.

Agora que o imenso bloco de gelo com uma área maior que a do Distrito Federal se separou da plataforma de gelo Larsen C, para onde ele deve ir?

O iceberg, que provavelmente será chamado de A-68, ficará à deriva no oceano, colocando os navios que passam por ali em perigo? Ou derreterá e aumentará o nível do mar?

De acordo com os pesquisadores do projeto Midas, da Universidade de Swansea (Reino Unido), que acompanha o iceberg de perto, o bloco de gelo não aumentará o nível do mar imediatamente.

No entanto, se a plataforma continuar perdendo sua área, isso pode resultar na separação de geleiras do continente rumo ao oceano, o que impactaria o nível do mar, ainda que em um índice moderado.

Mapa fendaImage captionA separação causada pela fenda transformou a paisagem da Península Antártica para sempre

A separação do iceberg da plataforma Larsen C reduziu sua área em 12% e transformou a paisagem da Península Antártica para sempre.

Ainda que a plataforma continue a crescer naturalmente, os pesquisadores haviam previsto antes que a nova configuração é potencialmente menos estável do que aquela antes da fenda - e há o risco de que a Larsen C siga o modelo de sua vizinha, Larsen B, que se desintegrou em 2002 depois de uma fenda parecida.

IcebergDireito de imagemCOPERNICUS SENTINEL (2017) ESA/ANDREW FLEMMINGImage captionRadares de um satélite europeu confirmaram a fenda

Rumo norte

"O movimento dos icebergs é controlado principalmente pelos ventos presentes na atmosfera e pelas correntes oceânicas que empurram o bloco de gelo que está abaixo da superfície da água", disse à BBC Mundo Anna Hogg, especialista em observações de satélite da Universidade de Leeds, no Reino Unido.

AntártidaDireito de imagemESAImage captionAs linhas vermelhas mostram as rotas tomadas por outros icebergs no passado. Por isso, tudo indica que o bloco irá se dirigir para o Atlântico SulA ação do icebergDireito de imagemATLAS DEL SUBMARINE GLACIAL LANDFORMSImage captionOs icebergs formam canais profundos no sedimento marinho

No entanto, isso também será determinado pela simetria do leito marinho.

"As grandes fendas topográficas, como por exemplo as pequenas montanhas no fundo do mar, podem ser suficientemente altas de forma que façam com que o iceberg permaneça no mesmo lugar por um tempo", diz Hogg.

Se nada o detiver e se ele começar a se mover, dará início a uma viagem ao redor do continente antártico, impulsionado pela corrente litorânea que gira em sentido anti-horário durante o ano inteiro.

Se ele chegar à ponta da Península Antártica, "continuará viajando até o norte, na direção da Passagem de Drake, de onde se dissipará", explica a especialista.

Imagem de satéliteDireito de imagemAFPImage captionOs cientistas têm monitorado de perto o desenvolvimento da fenda

Esse processo pode demorar meses ou mesmo anos.

"Como outros volumes de gelo semelhantes, ele levará um bom tempo para derreter, independentemente de estar em águas frias ou mais quentes", diz Hogg.

Perigo

Os cientistas não sabem exatamente onde ele chegará, mas normalmente os icebergs não costumam chegar a uma zona habitada.

E, à medida que ele se desloca para o norte, irá se dividir em fragmentos menores que podem continuar viagem em diferentes direções e de acordo com as forças que atuam sobre eles.

IcebergDireito de imagemSPLImage captionQuanto maior o iceberg, mais fácil é vê-lo à distância e, por isso, é menos perigoso

Quando sair de perto do continente antártico, é importante ficar no seu encalço, já que o iceberg pode se tornar um perigo para os marinheiros.

Agora não há perigo - em meio ao inverno no hemisfério sul - mas haverá durante o verão antártico: mesmo que a península esteja fora das rotas comerciais mais importantes, é o principal destino turístico de cruzeiros provenientes da América do Sul.

Mapa icebergImage captionIceberg recém descolado da Antártida é um dos maiores já registradosMapa icebergImage captionFenda na plataforma Larsen C já era observada por pesquisadores há anos

Enquanto o iceberg se mantiver como peça única, ou várias peças grandes, ele é menos perigoso, já que podemos vê-lo à distância. Quando se despedaçar, a situação piora, já que é difícil estimar, da superfície, quanto gelo está submerso na água.

Geórgia do Sul

Muitas vezes, pedaços grandes de gelo vão parar na plataforma de gelo superficial que cerca a ilha de Geórgia do Sul, a cerca de 1.390 km a leste-sudeste das ilhas Malvinas/Falklands.

Ao chegar ali, os icebergs liberam bilhões de toneladas de água doce no ambiente marinho local.

Segundo pesquisadores britânicos, esses pedaços gigantes de gelo têm um impacto dramático no local e podem até alterar os ciclos de alimentação dos animais que habitam a ilha.

A esta ilha, por exemplo, chegou o iceberg A-38 em 2004.

"A água doce tem um efeito mensurável na estrutura da coluna da água", disse Mark Brandon, oceanógrafo da Universidade Aberta, no Reino Unido.

FendaDireito de imagemAQUA / MODIS / NASAImage captionEsta imagem da Nasa mostra como a fenda separou o iceberg da plataforma

"Muda as correntes na plataforma porque muda a densidade da água do mar. E também baixa a temperatura da água".

O pó e os fragmentos de pedra que o iceberg traz da Antártida atuam como nutrientes quando se derretem no oceano e aumentam a produtividade das algas e das diatomáceas na base da cadeia alimentar.

Mas, na Geórgia do Sul, esses pedaços de gelo podem ter um impacto negativo ao atuar como barreira contra o fluxo de krill, uma fonte vital de alimento para muitos animais da ilha, incluindo pinguins, focas e pássaros.

 

BBC

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Por que provavelmente nunca encontraremos vida em Marte

Sabe-se que Marte, o "Planeta Vermelho", tem um dos ambientes mais inóspitos do Sistema Solar.

Mas agora cientistas dizem que sua superfície é muito menos acolhedora do que se acreditava.

Análises feitas em laboratórios com compostos presentes em Marte mostraram que a superfície do planeta contém um "coquetel tóxico" de produtos químicos que podem destruir qualquer organismo vivo.

Jennifer Wadsworth e Charles Cockell, pesquisadores da pós-graduação em Astrobiologia da Universidade de Edimburgo, na Escócia, realizaram os experimentos com partículas conhecidas como "percloratos".

Esses compostos, encontrados naturalmente e sinteticamente na Terra, são abundantes no solo de Marte, segundo confirmado por missões da NASA que detectaram as substâncias em diversas partes do "planeta vermelho".

Bactericidas

Os pesquisadores descobriram que os compostos são capazes de matar culturas da bactérias Bacillus subtilis, que representa o modo de vida básico.

À temperatura ambiente, os percloratos são compostos estáveis, mas em temperaturas elevadas tornam-se ativos.

Os cientistas queriam estudar qual seria a reação dos percloratos em temperaturas extremamente frias, como as de Marte.

Simulando as condições da superfície do planeta, que é banhado por luz ultravioleta, mas não de calor, descobriram que os compostos também podem ser ativados nessa situação.

Nos experimentos, os percloratos tornaram-se potentes bactericidas capazes de matar esses seres em minutos, esterilizando as superfícies do meio estudado, afirmam os pesquisadores.

As estruturas celulares das bactérias perderam rapidamente sua viabilidade, acrescentaram.

MarteDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionMissões a Marte comprovaram presença de água, mas descoberta recente diz que componentes de sua superfície impedem a vida

Os resultados foram ainda mais dramáticos quando os pesquisadores adicionaram óxidos de ferro e peróxido de hidrogênio, comuns na superfície de Marte.

Em um período de 60 segundos, a combinação de percloratos irradiadados, óxidos de ferro e peróxido de hidrogênio aumentou em dez vezes a taxa de morte das B. subtilis em comparação com as que tinham sido expostas apenas à radiação ultravioleta.

Mais inóspito

Isto sugere, segundo o estudo, que o planeta "é muito mais sombrio do que se pensava".

Os cientistas dizem que a descoberta tem muitas implicações para a busca por vida no Planeta Vermelho.

"Os dados mostram que os efeitos combinados de pelo menos três componentes da superfície marciana, ativados pela fotoquímica da superfície, fazem com que a superfície atual seja muito menos habitável do que se pensava previamente", escrevem os pesquisadores no estudo publicado na revista especializada Scientific Reports.

"E demonstram a baixa probabilidade de sobrevivência de contaminantes biológicos liberados por missões robóticas e humanas", acrescentam.

Explorador Spirit em MarteDireito de imagemNASAImage captionNova missão a Marte deve começar em 2020, para analisar seu solo mais profundamente

Wadsworth e Cockell afirmam que novas missões devem começar a perfurar camadas mais profundas do planeta para descobrir se a vida existiu ou existe lá.

"Se queremos encontrar vida em Marte, precisamos levar essa descoberta em conta", disse Wadsworth à agência de notícias AFP

"É preciso ver se podemos encontrar a vida abaixo da superfície, em lugares que não seriam expostos a essas condições."

Segundo os cientistas, o ambiente onde poderia haver mais chance de vida estaria a dois ou três metros abaixo da superfície, onde qualquer organismo conseguisse proteger-se da intensa radiação.

"Nessas profundezas, é possível que a vida marciana possa sobreviver", disse Wadsworth.

Uma nova missão para Marte, da sonda da Europa e da Rússia, ExoMars, está programada para viajar até o planeta em 2020.

Seu objetivo será procurar sinais de vida e levar uma broca para alcançar uma profundidade de até dois metros.

 

BBC

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Senado aprova reforma trabalhista: saiba o que pode mudar para os trabalhadores

Em mais uma evidência do caos político que o país atravessa, a reforma trabalhista foi aprovada pelo Senado em uma sessão marcada por bate-boca, gritaria e protesto de senadoras de oposição, que por mais de 6 horas ocuparam a mesa diretora da Casa, atrasando a apreciação da matéria.

Ao final, por 50 votos a favor e 26 contra, o governo de Michel Temer conseguiu a aprovação de texto idêntico ao que já havia passado na Câmara, evitando assim que a proposta tivesse que passar por novo crivo dos deputados. Os senadores rejeitaram três destaques e o texto segue agora para sanção do presidente.

Para o Planalto, isso era fundamental para demonstrar força e ganhar fôlego em outra batalha: tentar impedir que a Câmara autorize o Supremo Tribunal Federal a julgar o presidente, alvo de uma denúncia da Procuradoria-Geral da República por corrupção passiva.

A reforma aprovada é considerada fundamental pelo governo para "flexibilizar e modernizar" as leis trabalhistas, com objetivo de incentivar a criação de empregos. Críticos das mudanças dizem que ela precariza as condições de trabalho e não vai gerar novas vagas, já que isso dependeria na verdade de aumentos dos investimentos e consumo.

Com a aprovação no Senado, resta apenas que Temer sancione a reforma para que ela entre em vigor. O presidente, porém, prometeu vetar pontos polêmicos da nova legislação ou alterá-los por meio de medidas provisórias (propostas de lei que entram em vigor imediatamente, mas dependem depois de aprovação do Congresso para continuarem valendo). O compromisso foi feito justamente para evitar que os senadores aprovassem alterações no texto, provocando o retorno do texto à Câmara.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, porém, disse nas redes sociais que vai barrar qualquer medida provisória que Temer enviar ao Congresso para aterar a nova legislação trabalhista.

Um dos pontos que Temer prometeu alterar é a flexibilização para que mulheres grávidas possam trabalhar em lugares insalubres. Derrubar essa mudança no Senado foi a principal reivindicação das sete senadoras que ocuparam a mesa diretora - Gleisi Hoffmann (PT-PR), Fátima Bezerra (PT-RN), Ângela Portela (PT-ES), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Lídice de Mata (PSB-BA), Regina Sousa (PT-PI) e Kátia Abreu (PMDB-TO).

O presidente do Senado, Eunício Oliveira, chamou o protesto das senadoras de "ditadura", ao impedir o funcionamento da Casa, e chegou a mandar apagar as luzes do plenário.

O projeto de lei aprovado, bem mais amplo que a proposta originalmente encaminhada pelo governo em dezembro, altera mais de cem pontos da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas).

Confira abaixo alguns destaques da reforma que segue para sanção de Temer.

Acordos no lugar da lei

A reforma aprovada no Congresso prevê que alguns parâmetros da relação trabalhista possam ser negociados diretamente entre empresas e trabalhadores em acordos que prevalecerão sobre a lei.

Atualmente, muitos acordos entre trabalhadores e empregados têm sido anulados na Justiça do Trabalho, o que gera insegurança jurídica, segundo o governo. A reforma quer restringir a interferência do judiciário apenas a aspectos formais desses acordos, impedindo os magistrados de analisar se seu conteúdo está bem equilibrado entre as duas partes.

Críticos dessa mudança dizem que a reforma não traz medidas para fortalecer os sindicatos, o que deixará os trabalhadores como elo mais fraco na negociação dos acordos.

Entre os pontos que poderão ser negociados, caso a reforma entre em vigor, está a possibilidade de reduzir o intervalo mínimo de descanso e alimentação de uma hora para meia hora no caso de jornadas de mais de seis horas.

Outra possibilidade será a de combinar a divisão dos 30 dias de férias em até três períodos, bem como troca de dias de feriado.

Se a nova legislação entrar em vigor, será possível ainda que empregados e trabalhadores negociem diretamente plano de cargos e salários e o pagamento de participação dos lucros.

Nesse caso, também poderá ser alvo de acordo a prorrogação de jornada em ambientes insalubres, sem licença prévia das autoridades competentes do Ministério do Trabalho.

A proposta também permite acordar jornadas de até 12 horas de trabalho seguidas de 36 horas de descanso - esse é um dos pontos que Temer indicou que vai alterar, para que a jornada só possa ser fixada em acordo coletivo (não em acordos individuais).

Mudanças e inovações nos contratos de trabalho

A reforma cria um tipo de contrato novo no Brasil: o trabalho intermitente, conhecido no exterior como "zero hora". Nesse caso, o trabalhador é convocado sob demanda, com antecedência mínima de três dias, e recebe por hora trabalhada, não tendo garantia de uma jornada mínima.

A mudança não estava na versão do governo e foi incluída pelo relator da reforma na Câmara, deputado Rogério Marinho (PSDB-RN). Segundo ele, esse regime possibilitará a formalização de trabalhadores que hoje trabalham sem contratos, por exemplo no setor de serviços (bares, festas, etc).

Manifestantes contra reformaDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionPropostas de reforma trabalhista e da terceirização provocaram protestos e ainda levantam muitas dúvidas entre trabalhadores

"A expansão da variedade de contratos para incluir o 'zero hora' no Reino Unido tem tido impactos negativos diminuindo a renda do trabalhador, assim como na produtividade, o que é potencialmente ruim para a economia", disse à BBC Brasil o professor do departamento de Direito de Cambridge Simon Deakin, especialista no impacto de leis trabalhistas sobre emprego e renda.

Temer indicou que editará uma medida provisória dando mais salvaguardas aos trabalhadores nesse tipo de contrato, como fixar uma quarentena de 18 meses para evitar o risco de migração de contratos por tempo indeterminado para contrato intermitente.

A proposta aprovada também prevê a regulamentação do teletrabalho (trabalho à distância). O contrato deverá especificar quais atividades poderão ser feitas de casa, assim como definir como se dará a e manutenção de equipamentos para uso do empregado no home office. O controle do trabalho será feito por tarefa.

Segundo Marinho, "o teletrabalho proporciona redução nos custos da empresa e maior flexibilidade do empregado para gerenciar o seu tempo", além de contribuir para reduzir o congestionamento nas cidades.

A reforma também prevê que trabalhadores autônomos que trabalhem com exclusividade para um empregador não possam ser considerados empregados da empresa. Hoje, é comum que trabalhadores peçam na Justiça o reconhecimento do vínculo empregatício nesses casos. O governo se comprometeu em editar uma medida provisória prevendo que o contrato do trabalhador autônomo não poderá prever nenhum tipo de cláusula de exclusividade, sob pena de configuração de vínculo empregatício.

Já o contrato de jornada parcial, que hoje é limitado a 25 horas semanais sem possibilidade de horas extras, poderá ter dois novos formatos, se a reforma entrar em vigor: duração máxima de 30 horas semanais sem horas extras ou 26 horas, mas com possibilidade de mais 6. O argumento é que a mudança dessas regras favorece a contratação formal de jovens, idosos e mães.

A ampliação da duração máxima do contrato temporário, prevista na proposta de reforma enviada ao Congresso em dezembro, acabou sendo aprovada já na nova lei da terceirização, de março deste ano, passando de seis meses para nove meses.

O contrato com duração determinada serve a atividades sazonais, que não exigem contrato permanente, ou à substituição de trabalhadores em licença. Críticos da extensão consideram que nove meses é uma duração exagerada para atender a essas finalidades e temem que empresas optem por contratar mais temporários em vez de servidores permanentes.

Fim do imposto sindical

A reforma também prevê o fim do imposto sindical obrigatório - pela lei atual, o valor equivalente à remuneração de um dia de trabalho, descontado uma vez ao ano. Segundo o relator, a medida visa acabar com sindicatos de "fachada e pelegos".

Terminal vazioDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionTerminal de ônibus ficou inoperante durante greve de trabalhadores contra reformas do governo

Opositores da mudança, porém, argumentam que a retirada da contribuição precisa ser gradual, para permitir a adaptação dos sindicatos, ou que seja criada outra fonte de recursos. O governo sinalizou que vai adotar a proposta de extinção gradativa.

O imposto sindical obrigatório cobrado de empresas e trabalhadores somou R$ 3,9 bilhões em 2016, que foram distribuídos para cerca de 11 mil sindicatos de empregados e 5 mil patronais.

Ações judiciais

A reforma também traz mudanças nas ações trabalhistas. O projeto de lei prevê, por exemplo, que o trabalhador será obrigado a comparecer às audiências na Justiça do Trabalho (hoje pode faltar a três) e arcar com todas as custas do processo, caso perca a ação - hoje, ele não pagava os advogados contratados pela parte contrária. Além disso, o advogado do empregado terá que definir exatamente o que está pedindo (valor da causa).

Quem agir de má-fé no processo - alterar a verdade dos fatos ou gerar resistência injustificada ao andamento do processo, por exemplo - poderá ser punido com multa de 1% a 10% da causa, além de indenização para a parte contrária.

"Pretende-se com as alterações sugeridas inibir a propositura de demandas baseadas em direitos ou fatos inexistentes. Da redução do abuso do direito de litigar advirá a garantia de maior celeridade nos casos em que efetivamente a intervenção do Judiciário se faz necessária, além da imediata redução de custos vinculados à Justiça do Trabalho", escreveu o deputado Marinho em seu relatório.

Grávidas

A reforma flexibiliza a possibilidade de trabalho de grávidas em locais insalubres - hoje isso é proibido e a empresa precisa realocar a funcionária.

Pelo projeto de lei, gestantes ficam proibidas trabalhar em locais com nível máximo de insalubridade, mas poderão atuar em locais com nível médio e baixo, a não ser que apresentem atestado médico. O governo se comprometeu a inverter o princípio, para que o trabalho seja permitido nessas condições caso a trabalhadora apresente atestado médico autorizando.

Além disso, a reforma também prevê que mulheres demitidas terão prazo máximo de 30 dias após o desligamento para informar a empresa caso estejam grávidas. Hoje não há prazo.

Terceirização

Lei sancionada em março pelo presidente Michel Temer ampliou a possibilidade de terceirização para qualquer atividade exercida pelas empresas.

A reforma trabalhista estabelece salvaguardas para o trabalhador terceirizado, como uma quarentena para impedir que a empresa demita o empregado efetivo para recontratá-lo como terceirizado - isso só poderá ser feito após 18 meses da demissão, segundo a proposta.

O texto prevê também que o terceirizado deve ter as mesmas condições de trabalho dos empregados efetivos, como atendimento em ambulatório, alimentação, segurança, transporte, capacitação e qualidade de equipamentos.

Tempo de deslocamento

O tempo gasto pelo empregado entre sua casa e a empresa não contará mais como tempo de trabalho. A legislação anterior contabiliza como jornada a ser remunerada o deslocamento fornecido pelo empregador para locais de difícil acesso ou não servido por transporte público. Segundo Rogério Marinho, isso desestimula as empresas a fornecerem transporte para seus funcionários.

 

BBC

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Como uma amizade ajudou a criar um Ministério Público sem paralelo no mundo

Direito de imagemPF/STF/ABRImage captionMinistério Público realizou diversas denúncias contra políticos e, agora, entre eles está também o atual presidente da República

O Brasil acabava de sair da ditadura militar quando dois velhos amigos se reencontraram em Brasília. O político maranhense José Sarney e o advogado mineiro Sepúlveda Pertence se conheciam desde que haviam participado do movimento estudantil, nos anos 1950.

Três décadas depois, em 1985, a ascensão de Sarney à Presidência e a posse de Pertence como procurador-geral da República abriram o caminho para uma série de ações que reformularam o Ministério Público no Brasil.

Consolidadas na Constituição de 1988, as mudanças a tornaram uma instituição sem paralelo no mundo - segundo especialistas, nenhum outro Ministério Público conta com tanta independência, liberdade de ação e com atribuições tão amplas.

A transformação criou ainda as condições para que, outros 30 anos depois, o órgão se tornasse um dos principais antagonistas do governo Michel Temer.

Morte de Tancredo

Vice na chapa presidencial eleita pelo Congresso para suceder os militares, Sarney assumiu o Planalto porque Tancredo Neves, o presidente eleito, adoeceu gravemente na véspera da posse e morreu pouco tempo depois.

Pertence, que fora convidado por Tancredo para chefiar a Procuradoria Geral da República (PGR), foi empossado pelo amigo maranhense.

O advogado diz à BBC Brasil que conheceu Sarney quando era vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), no fim dos anos 1950, e o político acabara de assumir o posto de deputado federal, após se destacar no movimento estudantil.

Ambos costumavam se reunir na casa de um amigo mútuo, José Aparecido, e pertenciam ao grupo Bossa Nova da União Democrática Nacional (UDN), partido que se opunha a Getúlio Vargas.

"Vem daí nossa amizade, que se manteve apesar das divergências a partir de 1964", diz Pertence.

Enquanto Sarney galgou postos na política após migrar para a Arena, partido que sustentava a ditadura, Pertence atuou no Ministério Público até ser afastado pelo Ato Institucional n° 5, quando voltou a exercer a advocacia.

Mudanças radicais

Sepúlveda PertenceDireito de imagemABRImage captionSob o comando de Pertence, MP passou por profundas mudanças em meio a dificuldades financeiras

Finda a ditadura, Pertence retornou à Procuradoria - agora como seu chefe máximo - com um plano ambicioso: "desenhar um novo perfil do Ministério Público, com vistas sobretudo à Constituição de 1988".

Na época, a instituição enfrentava sérios problemas financeiros e não tinha qualquer protagonismo entre os órgãos públicos.

"Não tínhamos nem sede e ocupávamos salas emprestadas de outras instituições", lembra o ex-subprocurador geral da República Celso Roberto da Cunha Lima, que entrou no Ministério Público em 1983.

"Faltava até material básico de escritório: lápis, papel, máquina de escrever."

Lima conta que, além das dificuldades financeiras, os procuradores tinham margem bastante estreita de atuação, responsáveis basicamente pelo papel de acusação em inquéritos criminais e pela defesa da União em processos na Justiça.

Ele diz que o órgão começou a se transformar radicalmente com a aprovação da Lei de Ação Civil Pública, em 1985.

A lei passou a permitir que o Ministério Público atuasse na defesa do meio ambiente, do patrimônio histórico e dos direitos do consumidor. O órgão, que até então agia como um braço do governo, ganhou ferramentas para processar o próprio governo.

"A lei nos deu meios de alcançar objetivos de amplitude muito grande", diz o ex-procurador.

Para Pertence, a Lei de Ação Civil Pública "foi um grande salto para o Ministério Público, e particularmente para o Ministério Público Federal, até então dominado por uma visão em que a defesa da Fazenda [tesouro público] predominava claramente sobre outras funções".

Depois da lei - e em parte graças a ela, segundo o ex-procurador-geral -, ganhou força a tese de que a defesa da União deveria deixar de ser uma atribuição do Ministério Público, ideia que resultaria na criação da Advocacia Geral da União, em 1993.

"Eu me esforcei em preparar um Ministério Público para assumir funções que me pareciam mais relevantes e indelegáveis", diz Pertence.

Ele afirma que Sarney lhe deu "força e liberdade" para conduzir as mudanças. "É evidente que essa relação de amizade e afetividade me ajudou muito durante os anos que vivi na Procuradoria Geral."

Pertence diz ainda que a proximidade não o impediu de assumir posições contrárias ao governo. "Por três ou quatro vezes, avisei o presidente do que iria fazer, deixando-o livre para se fosse o caso de me exonerar."

Procurado, Sarney não quis conceder entrevista sobre a amizade com Pertence e as mudanças no Ministério Público.

Pressão pelo veto

Posse de José SarneyDireito de imagemAGÊNCIA SENADOImage captionSarney assumiu a Presidência após a morte de Tancredo Neves

Mas houve resistências às mudanças no Ministério Público.

Promotor de Justiça e professor de direito da Univates, em Lajeado (RS), Pedro Rui da Fontoura Porto diz que parte da comunidade jurídica defendia que o órgão continuasse atrelado ao governo.

Segundo Porto, que pesquisou a história do Ministério Público, o grupo tinha o apoio de professores influentes da Faculdade de Direito da USP, entre os quais Antônio Carlos de Araújo Cintra, Ada Pellegrini Grinover e Cândido Rangel Dinamarco.

Segundo o promotor, o grupo defendia que ONGs, e não o Ministério Público, se ocupassem das novas atribuições citadas na Lei de Ação Civil Pública.

"Realmente havia muita pressão pelo veto à lei", lembra Pertence.

Mas ele afirma que, valendo-se da amizade com Sarney e de uma articulação com membros do Ministério Público, conseguiu convencer o presidente a sancionar o texto quase na íntegra.

Sarney só vetou o trecho que permitia ao Ministério Público atuar em defesa de "direitos difusos". Pertence conta que tentou convencer Sarney a manter inclusive essa parte, mas que o presidente a considerava imprecisa.

"Eu falei: 'Mas vem cá, esse conceito [direitos difusos] está em formação, não se sabem que outras questões sociais poderão surgir'. Ele disse: 'Mas você conhece o promotor de Barra do Corda?' Eu disse: 'Não conheço, não tenho nada contra ele'. Ele: 'Eu também não, mas imagina que amanhã ele entenda que o casamento do João com a Maria fere algum interesse difuso. Então essa não vou sancionar'."

Cinco anos depois, com a aprovação do Código de Defesa do Consumidor, a defesa de direitos difusos finalmente entrou no rol de atribuições do Ministério Público (entre os principais articuladores do código estava o então promotor Herman Benjamin, relator do julgamento da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer no Tribunal Superior Eleitoral).

Demanda reprimida

Mesmo com o veto ao trecho sobre "direitos difusos", o promotor Pedro Porto afirma que a Lei de Ação Civil Pública revolucionou a atuação do Ministério Público.

"Havia uma demanda reprimida em relação a questões ambientais, mais até do que direito do consumidor, e houve um deslocamento muito grande para essas áreas", afirma. Ele diz que o Ministério Público passou a se especializar nesses temas e incorporou vários outros, como a defesa da infância e juventude.

Porto afirma ainda que a aprovação da lei "pavimentou o caminho" para a consolidação do novo Ministério Público pela Constituição de 1988.

A Carta conferiu ao órgão independência em relação aos demais poderes, garantiu sua autonomia administrativa e equiparou seus integrantes aos membros do Judiciário.

'Pulo do gato'

Já outros pesquisadores relativizam o papel que a Lei de Ação Civil Pública teve na remodelação do Ministério Público. Para o cientista político Fábio Kerche, autor de Virtude e Limites: Autonomia e Atribuições do Ministério Público no Brasil, a Constituição de 1988 foi o principal "pulo do gato" para o órgão.

Ele diz que, sem a independência conferida pela Carta, o órgão continuaria subordinado ao governo, ainda que tivesse ganhado atribuições com a nova lei.

Kerche afirma que, após a Constituição, o Ministério Público se tornou uma instituição sem paralelos no mundo. Ele diz que o modelo que mais se aproxima do brasileiro é o italiano, mas lá juiz e promotor pertencem à mesma carreira.

Na maioria dos países, diz o pesquisador, o Ministério Público é vinculado ao Poder Executivo.

"A combinação entre discricionariedade (liberdade de agir), independência e a quantidade de instrumentos de poder à disposição do órgão o tornam um caso único. Quando há uma instituição com esse grau de independência no seio da democracia, é difícil não haver tensões", diz Kerche.

'Criei um monstro'

Sede do MP em BrasíliaDireito de imagemABRImage captionMinistério Público encabeça a Operação Lava Jato, a maior ofensiva anticorrupção da história do Brasil

No ano seguinte à promulgação da Constituição, Pertence deixou a Procuradoria Geral da República para assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF).

Ele conta que, em sua última audiência como procurador-geral com Sarney, fez menção a uma frase atribuída ao general Golbery do Couto e Silva (1911-1987), idealizador do Serviço Nacional de Informações (SNI). Referindo-se ao SNI, que se tornara um dos principais órgãos de repressão da ditadura, Golbery teria dito que criou um monstro.

Ao tratar do Ministério Público na reunião com o presidente, Pertence lembrou o general. "Eu disse: 'Você me deixou solto. Eu não sou Golbery, mas criei um monstro'."

Quase trinta anos depois, o Ministério Público encabeça a Operação Lava Jato, a maior ofensiva anticorrupção da história do Brasil, e apresentou, pela primeira vez, uma denúncia contra o presidente da República.

Pertence não quis comentar a denúncia. Em 2007, ele deixou o STF e voltou a advogar. Seu escritório chegou a defender o grupo JBS, pivô do escândalo envolvendo Temer, mas deixou a função após executivos do grupo decidirem colaborar com os procuradores.

Em 2016, ao comentar a Lava Jato em entrevista ao site Consultor Jurídico, ele disse torcer para que "os excessos deste momento sejam contidos no futuro a partir de uma autocrítica do próprio Ministério Público".

Ele afirma, porém, que sua gestão e amizade com Sarney foram bastante benéficas para o órgão.

Pertence diz que, com as mudanças promovidas em sua gestão, o Ministério Público se tornou não só mais poderoso, mas também mais atento aos brasileiros mais vulneráveis.

Ele conta que as transformações incomodaram "os mais conservadores procuradores da época, que de repente viram seus corredores tomados por minorias, mulheres, negros, homossexuais, índios, a que não estavam acostumados".

"Mas foi fascinante, foi lindo", afirma.

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O que é a droga 'champanhe rosado' que causa alarme no Reino Unido

No último fim de semana de junho, o "champanhe rosado" causou a morte de uma pessoa e deixou outras dez no hospital, quatro delas em estado grave, na cidade inglesa de Manchester.

Este é o nome de um novo tipo de ecstasy que tem se popularizado em festas britânicas e preocupa as autoridades.

A Polícia de Manchester afirmou que a nova versão da anfetamina é "particularmente forte".

O ecstasy é um tipo de anfetamina modificada, também conhecido como MDMA (metilenodioximetanfetamina), que se popularizou nos anos 1970. A posse da droga, no entanto, é proibida na maioria dos países do mundo.

Enquanto o ecstasy, que se popularizou nos anos 1990, é vendido na forma de comprimidos coloridos, o "champanhe rosado" (ou pink champagne em inglês) vem na forma de cristais, o que torna mais difícil para o usuário medir a dose que está consumindo.

O último relatório do Escritório da ONU contra as Drogas e o Crime afirma que, em 2016, pelo menos 20 milhões de pessoas consumiram alguma variedade de MDMA.

Junto com a República Tcheca, o Reino Unido é um dos países com a maior taxa de consumo de ecstasy na Europa.

Popularidade

Após o incidente em Manchester, as autoridades britânicas abriram uma investigação sobre a droga, mas elas acreditam que sua popularidade repentina está relacionada com os efeitos potentes.

O "champanhe rosado" é um poderoso desinibidor que proporciona aos usuários horas de euforia, sensação de felicidade e extroversão.

No entanto, a "ressaca" destas horas costuma se manifestar com esgotamento físico e mental extremo, sensação de fazio e lentidão de raciocínio.

Pessoa pegando um comprimido de ecstasyDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionEm 2016, pelo menos 20 milhões de pessoas consumiram alguma variedade de MDMA, segundo a ONU

"Quando o MDMA é absorvido pela corrente sanguínea, ele atinge o cérebro, causando a liberação de diversos compostos químicos", disse à BBC o psiquiatra Adam Winstock, fundador da organização Global Drug Survey, que realiza pesquisas sobre o uso de drogas em todo o mundo.

"O cérebro libera principalmente serotonina, mas também noradrenalina e dopamina. Isso é o que dá a sensação de prazer."

Riscos

No entanto, Winstock diz que uma dose muito alta da droga pode causar um efeito adverso, com resultados muito desagradáveis para o usuário.

"Se você toma ecstasy demais, estes mesmos componentes químicos liberados pelo cérebro podem fazer com que seu coração comece a bater rápido demais e acabar com a euforia e a energia. Você começa a se sentir ansioso, nervoso e agitado."

Algumas pessoas conseguem superar os efeitos simplesmente esperando que eles passem, mas outros chegam a precisar de assistência médica.

Comprimidos de ecstasyDireito de imagemDEAImage captionQuando o MDMA atinge o cérebro, causa a liberação de químicos que causam prazer, mas, em excesso, ansiedade e agitação

Músculos muito rígidos, respiração acelerada, pulso rápido, convulsões, espuma na boca e inconsciência são alguns dos sintomas de que o usuário de "champanhe rosado" precisa ser levado a um hospital.

Winstock diz que, ainda que o MDMA seja uma droga "segura" em comparação com outras, o número de mortes ligadas à substância no Reino Unido está aumentando.

A substância pode causar a morte de uma pessoa de três maneiras principais: ataque cardíaco, superaquecimento e excesso de água.

Se o corpo receber serotonina, dopamina e noradrenalina em excesso, pode sofrer desidratação e superaquecimento. "Uma vez que a temperatura do corpo ultrapassa os 42º C, os órgãos param de funcionar e pode ser difícil que ela se recupere", explica o psiquiatra.

O uso de MDMA costuma causar sede, e algumas pessoas morrem por beber água demais. Isso porque a droga também pode provocar a Síndrome da secreção inapropriada do hormônio antidiurético (SIADH), o que inibe a liberação da urina, o que causa um desenquilíbrio metabólico.

Em 2015, 57 pessoas morreram após tomar ecstasy no Reino Unido. Em 2011, foram 13 pessoas.

Segundo Winstock, "o risco, em geral, é pequeno e até mesmo as pessoas que vão para a emergência hospitalar costumam voltar ao normal em dois ou três dias".

"Mas a única maneira de não correr nenhum risco é optar por não usar a droga", afirma.

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Por que é perigoso recarregar o celular em lugares públicos

É uma situação bastante comum. A bateria do seu celular acaba e você, no aeroporto, café ou transporte público, coloca o aparelho para recarregar.

Especialistas em segurança alertam, no entanto, que isso pode levar apuros - logo, demanda precauções.

"Quando você conecta seu telefone ou tablet (a pontos de recarga) em lugares públicos - um aeroporto, por exemplo -, se um hacker passou por ali antes, ele pode extrair informações do seu aparelho", explicou Samuel Burke, repórter de tecnologia da rede americana de TV CNN, em um programa especial sobre o assunto.

Além disso, usar um cabo USB para recarregar o celular conectando-o a um computador ou tablet que você não conhece também está longe de ser a melhor opção.

Segundo a empresa de segurança cibernética russa Kaspersky Lab, os celulares deixam expostos um grande número de dados quando estão conectados a computadores, um processo que, no jargão técnico, os especialistas chamam de "aperto de mão".

Homem usa celular no aerportoDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionQuem nunca precisou recarregar o aparelho no aeroporto, por exemplo?

Durante o "aperto de mão", o telefone passa, pelo cabo, informações para o computador. Ele "conta" à máquina, por exemplo, como se chama, qual é seu fabricante, número de série, sistema operacional e até sua lista de arquivos.

A partir daí, seu celular pode ficar "infectado" e é possível que uma pessoa monitore as atividades do aparelho usando o ID (código de identificação) do dispositivo, explicam os especialistas da empresa.

Entre as consequências mais comuns do "aperto de mão" está a possível invasão do dispositivo por um programa maléfico, malware em inglês, e que pode, por exemplo, bloquear seu acesso a arquivos.

Para devolver esse acesso, muitos hackers tentam obrigar o usuário a pagar um "resgate".

Outra possível consequência é que vírus podem infectar o aparelho e, disfarçados de páginas oficiais, obter informações pessoais do usuário, como dados bancários.

Celulares segundo recarregadosDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionConexão USB pode abrir porta para roubo de dados

'Juice-jaking'

Em texto no jornal americano The New York Times, a repórter de tecnologia da publicação, J.D. Biersdorfer, disse que a cópia de dados telefônicos de uma pessoa sem seu consentimento - chamada de "juice-jaking" - "foi demonstrada em convenções de hackers".

"É perfeitamente possível transferir programas maléficos para um telefone a partir da conexão USB de um computador ou dispositivo em ponto público de recarga, por exemplo, em aeroportos ou shopping centers", explicou Biersdorfer.

"Em 2016, a Federal Trade Commission dos Estados Unidos (Comissão Federal de Comércio, FTC na sigla em inglês) recomendou a consumidores que não conectassem seus smartphones a sistemas de entretenimento por meio de um porto USB ou conexão Bluetooth em carros alugados", escreveu a especialista.

A razão, segundo Biersdorfer, é que o sistema é capaz de importar e armazenar dados do seu telefone - como registros de chamadas, contatos e endereços que você solicitou ao GPS (Global Positioning System, instrumento de navegação embutido em computadores e smartphones que se baseia em sinais de rádio emitidos por satélites artificiais).

iPhone sendo recarregadiDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionAté uso de entrada USB de carros alugados, por exemplo, é desaconselhado

Por isso, a FTC aconselha que, em vez de utilizar a conexão de saída do USB, o consumidor conecte seu aparelho na tomada elétrica do carro por meio de um cabo compatível.

Detalhe: esse é apenas um exemplo de "juice-jaking".

Recomendações

- Utilize as funções de encriptação e autenticação do seu celular para proteger seus dados e arquivos. Elas podem ser encontradas entre os ajustes de segurança do aparelho.

- Use um bom antivírus.

- Não recarregue seu celular em computadores e pontos de recarga que não sejam de sua confiança.

- Se você decidir correr o risco e recarregar em um local menos confiável, não desbloqueie o aparelho durante a recarga.

- Use um cabo USB especial, que te permita recarregar o telefone mas, ao mesmo tempo, evite a transferência de dados.

- Faça a recarga com o aparelho desligado

- Proteja seu telefone com uma boa senha.

- Seja cauteloso com os aplicativos que você instala.

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O que está por trás do surpreendente aumento no número de mulheres na cracolândia

Em novembro de 2016, a fotógrafa Adri Felden recebeu um convite da Prefeitura de São Paulo para realizar um trabalho voluntário na cracolândia: fazer retratos de dependentes químicas da região.

"Antes de aceitar, fui conhecer a cracolândia", conta Felden, de 50 anos, lembrando que a presença de meninas e mulheres na área, algumas delas grávidas, foi o que mais chamou sua atenção.

Segundo pesquisa divulgada neste mês pela Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado, a percepção de Adri está certa: o percentual de mulheres na cracolândia mais que dobrou em um ano: de 16% em 2016 para 34% em 2017.

Enquanto no ano passado 119 usuárias teriam circulado diariamente pela região que concentrou durante anos uma feira de drogas a céu aberto, neste ano a estimativa é de 642 mulheres.

O estudo mostrou que o tráfico está cada vez mais organizado na cracolândia e que traficantes têm privilegiado a cooptação de mulheres para consumo da droga e exploração. Outro ponto identificado foi a associação do tráfico na região à prostituição e ao abuso sexual de crianças, adolescentes e mulheres.

"Mulheres que antes iam somente comprar droga acabaram sendo recrutadas pelo tráfico. Muitas delas passaram a ser exploradas, inclusive sexualmente. É impressionante como a cracolândia conseguiu manter as mulheres na região, tanto para consumo como trabalho", aponta o secretário de Desenvolvimento Social de São Paulo, Floriano Pesaro (PSDB).

Especialistas envolvidos no estudo apontam que as mulheres são mais vulneráveis do que os homens na cracolândia: chegam com laços sociais e familiares rompidos e, por isso, têm mais dificuldade em procurar e receber ajuda.

A pesquisa entrevistou 139 usuários nos períodos entre abril e maio de 2016 e abril e maio de 2017. Foi o primeiro estudo a traçar características sociodemográficas e de vulnerabilidade social da população dessa região.

Mulher conduzida por policial em ação na cracolândiaDireito de imagemREUTERSImage captionMulher é conduzida por policial em ação na cracolândia em maio deste ano; pesquisa identificou cooptação de usuárias pelo tráfico

"Foi uma surpresa identificar esse número de mulheres na região e mais surpresa ainda perceber que a violação de direitos humanos em dependentes químicas é maior do que em homens", afirmou Pesaro.

Mulheres estão mais expostas à violência - e ao domínio de traficantes - porque muitas vezes o corpo feminino é visto como moeda de troca por drogas.

"Constatamos trabalho infantil e análogo à escravidão, com maior incidência sobre o sexo feminino. Há mulheres jovens, mas também muitas idosas são exploradas ali. Também encontramos mulheres em cárcere privado e até reféns", relata o secretário.

De acordo com a pesquisa do governo, a população de usuários frequentes da cracolândia saltou de 709 pessoas em 2016 para 1.861 em 2017 - um aumento de 162%.

"Um dos motivos desse aumento foi a região ter ficado mais fértil para compra e venda de drogas", avalia Pesaro.

Preconceitos

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador do Recomeço, programa anticrack do governo estadual, o preconceito é mais intenso contra uma mulher viciada em crack do que contra um homem, o que dificulta uma eventual reabilitação.

"É muito mais difícil para a mulher aderir ao tratamento, em função dos estigmas e julgamentos morais, e mais provável que não se sintam confortáveis com o tratamento, por serem minoria", afirma.

"Os laços familiares se perdem, ela se dissocia mais rápido dos amigos por causa dos julgamentos, perde a guarda dos filhos. Para sobreviver, ela substitui laços domésticos pelo grupo que encontra na cracolândia", completa.

Há também agravantes fisiológicos. Do ponto de vista médico, a dependência química é mais severa em mulheres, por fatores hormonais.

"É muito mais difícil para uma mulher se manter abstinente do que para um homem. Também é mais fácil para elas desenvolverem a dependência química", afirma Laranjeira.

Frequentadora da cracolândiaDireito de imagemADRI FELDEN/ARGOSFOTOImage captionMulher retratada na cracolândia paulistana; dependentes ficam mais expostas à violência na região, aponta levantamento

A origem dessas mulheres dificulta uma possível saída da vida na cracolândia: apenas 56% são de São Paulo e região metropolitana. Outras 19% declararam vir do interior paulista, 21% de outro Estado e 2% de outros países.

Para a fotógrafa Felden, que aceitou o convite da gestão municipal anterior e produziu um ensaio fotográfico com 21 dependentes químicas, de 20 a 53 anos, ver a situação daquelas mulheres de perto trouxe "uma desolação profunda".

Na época do ensaio, os dependentes químicos ocupavam uma esquina na região da Luz, centro de São Paulo. O fluxo, como era conhecida a concentração de usuários e traficantes, era tão intenso que impedia a passagem de veículos.

Desde o último dia 21 de maio, duas ações policiais de combate ao tráfico na região dispersaram os usuários, que se espalharam por outros pontos da área central da cidade, mas tem se reaproximado da cracolândia original.

Violência de gênero

O levantamento indicou que 44% das mulheres da região tinham histórico de abuso físico ou sexual na infância; 70% declararam já terem sido vítimas de violência na cracolândia.

Felden, que conversou com dependentes químicas para produzir o ensaio fotográfico, diz que histórias de violência contra as usuárias eram comuns.

"Uma das mulheres que fotografei tinha acabado de sofrer um estupro. Ela tem 53 anos e já havia sofrido violência sexual na infância", relata a fotógrafa. "Outra, de 20 anos, analfabeta e moradora de rua, já tinha feito seis abortos e, na última vez que a vi, no Natal, havia levado uma facada de seu companheiro no joelho."

"Ali você tem, em um único território, todas as violações de direitos humanos, sendo o grupo das mulheres e crianças o mais vitimado e mais esquecido pelas políticas públicas até agora", afirma Pesaro.

Frequentadora da cracolândiaDireito de imagemADRI FELDEN/ARGOSFOTOImage captionEnsaio fotográfico se tornou injeção de autoestima em dependentes 'para que se vissem como mulheres fortes', afirma fotógrafa

Gravidez e sífilis

A pesquisa mostrou também que mais da metade das mulheres que engravidaram na cracolândia nunca quiseram fazer exame pré-natal. Todos os filhos das dependentes químicas da região nasceram abaixo do peso, e 67% nasceram prematuros.

No momento da entrevista, 14,3% das mulheres estavam grávidas e 21% já declararam que já tinham praticado aborto.

"É fato que quando pensamos em dependentes químicos, sempre pensamos em homens, não em mulheres. Mas elas estão ali e requerem diferentes cuidados e tratamentos que um homem", alerta Laranjeira, para quem o pré-natal deve ser um serviço essencial na cracolândia.

"Gravidez precoce e não planejada, aumento de sífilis sem precedentes - talvez a maior epidemia dos últimos anos - HIV, hepatite e tuberculose são problemas atuais da cracolândia", acrescenta Pesaro.

O secretário diz que, diante dessas constatações, mulheres estão sendo priorizadas nas unidades de atendimento emergencial a dependentes, montadas pela prefeitura na região central.

"Há também um trabalho de convencimento, porque muitas mulheres escondem que têm crianças ou que estão grávidas, com medo de perder os filhos", conta o secretário.

Ação policial na cracolândia em 21 de maioDireito de imagemREUTERSImage captionMulheres em abordagem durante ação policial na cracolândia em maio

Para Laranjeira, a maternidade pode ser uma oportunidade para a mulher deixar o vício. "A ajuda que devemos oferecer a uma grávida nessa situação não é tirar a criança dela. É preciso oferecer um tratamento da dependência química que permita a ela ficar com o filho e, depois, ajudá-la a refazer a vida."

Autoestima

Felden conta que produzir o ensaio com as dependentes não foi fácil. Era preciso conquistar confiança e retirá-las da concentração de usuários. Aos poucos e com conversa, conta, as mulheres começaram a vir, trazendo brincos e até maquiagem.

Ao ver o resultado do trabalho, Felden revelou as fotos e voltou à região para entregar as imagens às 21 mulheres que registrou.

"A ideia era apenas fazer um trabalho voluntário com mulheres da cracolândia, mas esse ensaio se tornou um estímulo de autoestima para que se vissem como mulheres fortes. Uma das mulheres me contou depois que tem tentado reduzir os danos do vício depois que se viu bonita", relata a fotógrafa.

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É possível sobreviver comendo apenas um tipo de alimento?

Nem só de pão vive o homem - em parte porque esse homem desenvolveria escorbuto (uma doença desencadeada pela carência de vitamina C) em cerca de um mês nesse experimento.

Em geral, as melhores dietas são as que oferecem uma boa variedade de alimentos, garantindo que você tenha tudo, desde vitamina C até ferro ou ácido linoleico, sem você sequer ter que pensar no assunto.

Até mesmo dietas da moda que focam em algumas comidas ou em eliminar algumas coisas geralmente são variadas o bastante para oferecer um nível razoável de nutrição.

Ainda assim, e se você tivesse que viver a situação extremamente improvável de ter que se alimentar apenas de um único alimento, qual seria o mais nutritivo e completo de todos? Você poderia conseguir o que precisa a partir de, digamos, somente batatas, ou bananas, ou abacates?

Há apenas uma certeza, a de que entre os alimentos candidatos não estarão carne nem a maioria das frutas, legumes e verduras na dieta. A carne não tem fibra, nem vitaminas e nutrientes importantes.

Frutas, legumes e verduras podem ter vitaminas, mas não chegam perto da quantidade de gordura e proteína da carne, mesmo se consumidos em grandes quantidades.

BatatasDireito de imagemISTOCKImage captionBatatas têm bastante proteína e vitaminas

O explorador do Ártico Vilhjalmur Stefansson escreveu sobre um fenômeno conhecido no norte do Canadá como "rabbit starvation" ("inanição do coelho"), que ocorre quando só se come carne magra - sem gordura -, como a de coelho. Após uma semana, a pessoa "tem diarreia, dor de cabeça, lassidão e um vago desconforto".

Acredita-se que quando todas as calorias diárias são obtidas apenas de proteína, o fígado é sobrecarregado e não consegue processar a proteína.

Uma opção melhor seria comer só batatas. A nutricionista Jennie Jackson, da Glasgow Caledonian University, escreveu no ano passado sobre o caso do australiano Andrew Taylor, que passou um ano comendo apenas batatas para perder peso e desenvolver hábitos mais saudáveis.

O que faz das batatas um alimento especial é que, para um amiláceo, ela tem uma quantidade incomum de proteína, o que inclui uma grande variedade de aminoácidos, diz Jackson. Mesmo assim, comer 3 kg de batatas por dia chegaria apenas a dois terços da quantidade de proteína recomendada para alguém do tamanho de Taylor.

As batatas também não têm a quantidade recomendada de gordura e, apesar de Taylor ter incluído batata-doce na categoria, o que incluiria vitaminas A e E, ferro e cálcio, Jackson percebeu que vitaminas B, zinco e outros minerais estariam em falta. Mas ele parece ter conseguido sobreviver ao seu desafio sem grandes prejuízos. E ele conseguiu perder bastante peso.

Como acompanhamento, as batatas frequentemente são mencionadas nesse tipo de assunto. Há alguns anos, um leitor perguntou à famosa coluna The Straight Dope do jornal The Chicago Reader, dedicada a responder dúvidas sobre vários assuntos, se era verdade que você poderia viver apenas à base de batatas e leite.

Afinal de contas, diz-se que antes da Grande Fome da Irlanda, as pessoas viviam praticamente só de batata. Cecil Adams, o principal autor dessa coluna, diz ter investigado a questão com seu assistente e descoberto que com muita batata e leite você consegue quase tudo o que precisa - com exceção do mineral molibdênio. Mas você resolve o problema se acrescentar um pouco de aveia à dieta.

AvocadoDireito de imagemISTOCKImage captionAvocados têm muitos nutrientes - mas não tanto quanto batatas

Ao ouvir isso, Jackson ri. "Ah, essa é a nossa dieta, é a dieta escocesa há centenas de anos. Isso faz sentido. Batatas, leite e aveia, com um pouco de couve também."

Mas além da mera nutrição, há outras barreiras para a dieta de um alimento só. Os humanos têm mecanismos feitos justamente para evitar esse tipo de situação (provavelmente porque isso acaba levando alguém à desnutrição) - um fenômeno chamado saciedade sensorial específica, em que quanto mais você come de um alimento, menos seu estômago consegue processá-lo.

"Eu chamo isso de situação sobremesa", diz Jackson, "quando você come uma refeição e fica cheio, você não conseguiria dar mais nenhuma mordida. Então alguém traz uma sobremesa e você consegue ingerir mais algumas calorias". Há o perigo de que comer a mesma coisa dia após dia por um longo período torna mais difícil você comer o suficiente disso para mantê-lo firme (alguém se habilita a comer 3 kgs de abacate por dia?).

Além disso, a lógica de que deve ser possível viver com um único alimento - desde que todas as vitaminas, minerais e calorias estejam presentes - não funciona. Para entender por que, considere como chegamos à visão da nutrição ideal.

Pesquisadores no começo do século 20 tiravam certos nutrientes dos ratos e os acompanhavam para ver se eles ficariam doentes ou morreriam. Foi assim que aprendemos sobre a existência de vitaminas, por exemplo. Esse tipo de experimento mostra quais são os nutrientes vitais - que precisam ser consumidos a curto prazo para evitar a morte.

CoelhoDireito de imagemISTOCKImage captionA carne de coelho contém tão pouca gordura que pode causar problemas digestivos

Porém, é possível que alguns benefícios de uma dieta variada - que faz a diferença a longo prazo - não sejam detectados em experimentos desse tipo, diz Jackson.

Dados epidemiológicos das pessoas deixaram claro que uma variedade de legumes e verduras na dieta é mais saudável do comer apenas alguns, por exemplo, mas ainda não se sabe ao certo o motivo.

Talvez uma dieta sem hortaliças verdes signifique que, em algum momento da vida, você terá uma probabilidade maior de desenvolver câncer.

"Não sabemos exatamente que comidas provocam quais efeitos", diz Jackson. "Então se por um lado você pode saber o que consegue tirar de nutrientes macro, pelo outro, você não saberá exatamente o que está perdendo".

A dieta de apenas um alimento pode poupar tempo e estresse, mas seria uma maneira rápida de ficar doente e também entediado.

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