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Tratamento obrigatório para viciados em crack é ação 'ridícula', diz neurocientista americano

Internar usuários de drogas à força, como a gestão João Doria (PSDB) solicitou à Justiça, é uma ação "ridícula" que não resolverá o problema da cracolândia em São Paulo, avalia o neurocientista Carl Hart, professor titular da Universidade de Columbia, em Nova York (EUA).

Para Hart, que estuda drogas há mais de 20 anos, é preciso descobrir quem de fato é viciado entre frequentadores desses espaços e, depois, desenvolver tratamentos individuais para os dependentes químicos.

"Embora usem crack, muitas pessoas não são viciadas e têm outros problemas: psiquiátricos, relacionados à pobreza. Precisamos descobrir exatamente o problema de cada pessoa, e isso demandaria grande comprometimento e mais inteligência na abordagem", afirmou Hart à BBC Brasil.

Procurada pela reportagem, a Prefeitura de São Paulo não comentou as considerações do professor.

As pesquisas de Hart, autor de Um Preço Muito Alto - A Jornada de Um Neurocientista Que Desafia Nossa Visão Sobre Drogas (editora Zahar), inspiraram programas como o Braços Abertos, programa da gestão Fernando Haddad (PT) extinto pelo governo Doria.

No programa anticrack da gestão petista, dependentes químicos ganhavam moradia em hotéis da cracolândia e R$ 15 por dia se trabalhassem em atividades como varrição e jardinagem.

No último domingo, uma grande operação policial dispersou à força dependentes químicos que se reuniam na cracolândia, fechou comércios e hotéis usados no Braços Abertos. Na terça, três pessoas se feriram durante a demolição de uma pensão pela prefeitura.

A gestão Doria também pediu à Justiça autorização para realizar internações compulsórias de dependentes de crack, desde que o usuário passe por análise médica e psicológica. Hoje, esse tipo de encaminhamento cabe à Justiça. A prefeitura solicitou ainda autorização para retirar dependentes da cracolândia e enviá-los para avaliação médica contra sua vontade, o que seria uma "última alternativa" para casos graves.

"Minha primeira impressão é que o novo prefeito está colocando a politica à frente das pessoas. Se o objetivo é ajudar outras pessoas da sociedade, é preciso descobrir um modo de incluí-las nessa sociedade", disse Hart.

Carl HartDireito de imagemDIVULGAÇÃOImage captionDrogas em si não são problema, afirma Carl Hart, para quem as mazelas reais são pobreza, desemprego, políticas seletivas de repressão, ignorância e negligência diante de estudos sobre essas substâncias

Comportamento racional

Professor de Psicologia e Psiquiatria, Hart questiona a visão de que as drogas tenham alto poder viciante e sejam a causa de diferentes mazelas sociais. Ele diz reconhece que há quem abuse delas e sofra efeitos graves no cotidiano, mas diz que concluir que as substâncias sejam o problema - e declarar "guerra" a elas - é um erro.

Criado em um bairro pobre de Miami e traficante de maconha na adolescência, Hart diz que começou a estudar neurociência porque queria ajudar a resolver o problema do vício em drogas. Ele afirma que acreditava na visão predominante nos EUA na segunda metade dos anos 1980, que explicava o crime e a pobreza em certas regiões pela disseminação do crack.

Um primeiro passo em suas pesquisas foi a descoberta, segundo ele, de que drogas como crack não são tão viciantes como se pensa. "Não há droga que vicie em uma dose. Dados mostram claramente que 80%, 90% das pessoas que usam drogas não possuem um 'problema com drogas", afirmou Hart em conferência em 2014.

O pesquisador costuma citar o tabaco como a droga mais viciante (33% dos fumantes, ou um em cada três, ficará dependente, diz), seguida por heroína (25%), cocaína e crack (15% a 20%), álcool (15%) e maconha (10%).

"Eu mesmo achava que o problema eram as drogas, mas não é. Há pessoas em São Paulo que têm dinheiro e bens, usam drogas e estão bem. Mas elas tem oportunidades, empregos, todas as coisas. Muitas das pessoas na cracolândia tiveram educação precária, não têm emprego, vem de famílias excluídas da sociedade. Há todos esses problemas sociais, mas é fácil para um político dizer 'vamos livrar a comunidade dessa droga' e não lidar com os problemas dessas pessoas pobres", disse à BBC.

Para estudar o comportamento dos dependentes, ele publicou anúncio em revista à procura de viciados nas ruas de Nova York. Oferecia US$ 950 para que fumassem crack produzido a partir de cocaína de padrão farmacêutico, desde que permanecessem vivendo em um hospital por três semanas durante o experimento.

Usuário de crackDireito de imagemREPRODUÇÃOImage captionUsuário de crack; Hart critica políticas nos EUA que nos anos 80 tornaram punições para posse de crack até cem vezes mais duras do que para posse de cocaína

No começo de cada dia, uma enfermeira colocava uma dose de crack em um cachimbo e oferecia ao usuário - vendado, o dependente não tinha como saber o tamanho da dose. Depois, cada participante recebia novas ofertas para fumar aquela mesma dose, mas também poderiam optar por uma recompensa, que às vezes eram US$ 5 ou um vale-compra do mesmo valor.

Quando a primeira dose era alta, os dependentes normalmente optavam por uma nova dose. Mas, se a primeira havia sido reduzida, era mais provável que abrissem mão da segunda rodada.

O neurocientista chegou aos mesmos resultados ao repetir o experimento com usuários de metanfetamina. E quando elevava a recompensa alternativa para US$ 20, todos os viciados, de crack e metanfetamina, optavam pelo dinheiro, mesmo sabendo que levariam semanas para embolsar os valores.

Para Hart, isso mostrou que dependentes químicos são capazes de tomar decisões racionais, desmontando a "caricatura" do viciado que não consegue resistir a uma dose.

Daí a ênfase do pesquisador na investigação das causas do vício de cada pessoa antes da "difusão de mitos sobre as explicações" e da "intervenção com soluções prontas". Se alguém está abusando do álcool ou do crack para lidar com algum trauma ou ansiedade, o tratamento efetivo, afirma, deveria se focar no transtorno psicológico.

Empatia e compaixão

Hart afirma que, embora "não fosse perfeito", o programa Braços Abertos era "um passo na direção certa" porque demonstrava, diz ele, "compaixão" com os dependentes.

Ação na cracolândia paulistanaDireito de imagemDIVULGAÇÃOImage captionAção de desmontagem de concentração de usuários em São Paulo

"Certamente isso não é o que o atual prefeito está fazendo ao chamar a polícia e limpar a área. Isso mostra às pessoas que ele não tem compaixão e que está fazendo politica com pessoas", disse o professor, que vê o Brasil hoje na mesma situação dos EUA nos anos 1980 em relação ao crack, pelo foco que vê como excessivo na repressão.

A Suíça é uma sociedade homogênea (social e economicamente), praticamente toda branca. É mais fácil para essas pessoas ver esses usuários de drogas como irmãos e irmãs

Ele cita os programas para dependentes de heroína na Suíça, onde o governo fornece duas doses diárias aos inscritos e uma renda básica aos cidadãos, como exemplo de política de drogas de sucesso e "não moralista".

"Claro que a Suíça é uma sociedade homogênea (social e economicamente), praticamente toda branca. É mais fácil para essas pessoas ver esses usuários de drogas como irmãos e irmãs. O Brasil é como os EUA, muito diverso racialmente. Pessoas em lugares como a cracolândia são basicamente afro-brasileiras, negras. As pessoas em sua sociedade não as veem como irmãs, como na Suíça", avalia Hart, que foi o primeiro neurocientista negro a se tornar professor titular em Columbia.

A empatia, diz Hart, é um recurso fundamental para enfrentar a questão da dependência. "Se não lidarmos com essa questão, não resolveremos esse problema. Se isso não é tratado de forma clara, estamos apenas fingindo tratar do problema."

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Quem seriam os 'presidenciáveis-relâmpago' para o caso de Temer cair


Caso Temer venha a renunciar, sofrer impeachment ou ter a chapa de 2014 cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - que julga a ação no próximo dia 6 -, o caminho previsto pela Constituição Federal prevê a realização de eleições indiretas dentro de 30 dias, a não ser que a oposição consiga se mobilizar para aprovar a proposta de emenda constitucional que permite convocar eleições diretas.

A eleição indireta seria realizada no Congresso e o candidato eleito ficaria no cargo até o término do mandato do atual presidente, 31 de dezembro de 2018.

Entre os nomes sendo aventados estão figuras que agradam ao mercado, como o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles e o presidente da Petrobras, Pedro Parente; ou que transitam bem entre os partidos, como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), da Defesa e da Justiça nos governos FHC, Lula e Dilma, Nelson Jobim.

Quem seria elegível ou não é outra questão, que dependerá das regras definidas para uma eventual eleição indireta, que não tem seus termos definidos por lei. Outra questão é se aceitariam ser considerados para o cargo - o próprio Jobim, disse em um evento nesta semana que não estaria interessado.

As regras de praxe para que um candidato seja elegível a presidente incluem a necessidade de filiação partidária e o afastamento prévio de cargos como o de magistrado, governador ou prefeito pelo menos seis meses antes do pleito.

Tais regras podem ser flexibilizadas para se adaptar ao curto prazo de uma eleição-relâmpago, diz José Guilherme Berman, professor de direito da PUC-Rio e advogado do BMA.

"Há uma tremenda incerteza sobre quem poderia de fato concorrer e sobre quais os requisitos para participar de uma eleição indireta", considera. "O desafio será encontrar um nome que não desperte controvérsia, que seja acima de qualquer suspeita, que pudesse guiar o país até as eleições de 2018."

Para João Augusto de Castro Neves, diretor para América Latina do Eurasia Group, um eventual candidato teria que apresentar credenciais anticorrupção, por um lado, e estar comprometido "com alguma versão" das reformas que vêm sendo propostas pelo governo Temer.

O difícil seria reunir os atributos desejáveis em uma só pessoa: "Todo nome tem algum probleminha. Estamos numa situação de polarização muito grande no Brasil. Não temos um unicórnio", diz, referindo-se à criatura das fábulas.

Conheça os principais nomes que estão sendo aventados para uma eventual eleição-relâmpago no Congresso:

Rodrigo Maia

Rodrigo MaiaDireito de imagemANDRESSA ANHOLETEImage captionRodrigo Maia é alvo de dois inquéritos da Lava Jato

Rodrigo Maia é visto como uma solução interna da Câmara dos Deputados. Foi eleito para a presidência da Câmara com o afastamento e posterior prisão de Eduardo Cunha, e foi reeleito para um biênio completo em fevereiro deste ano, após forte campanha do governo Temer a seu favor. O deputado do DEM chegou ao cargo aos 46 anos, em seu quinto mandato na casa. Natural do Rio de Janeiro, é filho do ex-prefeito e atual vereador do Rio Cesar Maia.

Em uma eventual queda de Temer, pesariam contra Maia seu alinhamento com Temer e, sobretudo, o fato de estar sendo investigado. Ele é alvo de dois inquéritos da Lava Jato. No primeiro, é acusado de receber propinas da Odebrecht para financiar campanhas do DEM; no segundo, é acusado de receber propina para aprovar uma medida provisória para desonerar a matéria-prima usada pela indústria química e beneficiar a Braskem, controlada pela Odebrecht.

Maia é favorável à reforma previdenciária e comprometido com a agenda econômica e de reformas do governo Temer. Já se declarou contrário à legalização da maconha e ao casamento gay (embora não à união civil entre pessoas de mesmo sexo). Maia é o primeiro na linha sucessória caso Temer seja afastado, mas tem se mantido fiel ao presidente. Depende dele aceitar ou não os pedidos de impeachment apresentados contra Temer; nesta semana, já arquivou parte dos pedidos protocolados para impedir o presidente.

Tasso Jereissati

Tasso JereissatiDireito de imagemEVARISTO SAImage captionSenador pelo Ceará, Tasso Jereissati mostra sua disposição em brigar pela aprovação da reforma trabalhista

Senador pelo Ceará, Tasso Jereissati, 68 anos, foi governador do Estado durante três mandatos e acaba de assumir interinamente a presidência do PSDB, após o afastamento do senador Aécio Neves, com as denúncias de recebimento de propina feitas por executivos da JBS. Natural de Fortaleza, Jereissati nasceu em uma família com tradição no ramo político e empresarial, filho do senador e industrial Carlos Jereissati.

Enveredou pelos negócios e tornou-se pioneiro no ramo de shopping centers no Brasil, ao lado do irmão, Carlos Francisco Jereissati. Mais tarde, mergulhou na política, e ao longo das últimas décadas concilia as duas atividades - atuando como um "gestor no governo", segundo um perfil da revista Forbes que descreve sua trajetória como "vitoriosa".

Alguns tucanos certamente gostariam de vê-lo eleito. Entretanto, um figurão do mesmo PSDB que saiu derrotado em 2014, e que foi um dos braços direitos durante a campanha do senador Aécio Neves, encontraria forte resistência de partidos de esquerda.

Enquanto se espera uma decisão do PSDB sobre se retira ou não o apoio ao combalido governo Temer, Jereissati mostra sua disposição em brigar pela aprovação da reforma trabalhista.

"Nós não devemos deixar o país degringolar em função da crise do governo", afirmou na segunda-feira. "Temos que ter responsabilidade com o nosso trabalho no dia a dia para não parar o Brasil e dar sinalização de que a anarquia está montada."

Henrique Meirelles

Henrique MeirellesDireito de imagemMIGUEL SCHINCARIOLImage captionO ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, seria bem visto pelo mercado e associado à manutenção da política econômica e a continuidade das reformas

Henrique Meirelles foi presidente do Banco Central durante todo o governo Lula (2003-2010) e voltou ao governo no ano passado, apontado ministro da Fazenda do governo de Michel Temer. Seu nome seria bem visto pelo mercado, associado à manutenção da política econômica e à continuidade no rumo das reformas que vêm sendo realizadas pelo governo Temer. Meirelles também tem como trunfo um bom trânsito com o PT, o PMDB e o PSDB.

Mas Meirelles está estreitamente ligado ao mesmo grupo JBS cuja delação agora ameaça derrubar Temer. Foi presidente do conselho de administração da J&F entre 2012 e 2016, grupo controlador da JBS. Há temores, ainda, de que possa vir a ser citado em eventuais delações premiadas do deputado cassado Eduardo Cunha e do doleiro Lúcio Funaro - cujo silêncio o executivo Joesley Batista indicou estar comprando na conversa que gravou secretamente com o presidente Michel Temer.

E o fato de seu nome já ter sido cotado para presidência sugerem que ele poderia querer buscar uma reeleição em 2018, não se contentando apenas em fazer a transição até lá.

Nelson Jobim

Nelson JobimDireito de imagemVANDERLEI ALMEIDAImage captionEx-ministro e ex-presidente do STF, Nelson Jobim tem bom trânsito entre partidos, mas contra ele pesa o fato de ter atuado na defesa de acusados na Lava Jato

Nelson Jobim é visto como um nome forte para uma eventual eleição indireta por ter boa aceitação entre PMDB, PSDB e PT, tendo sido deputado pelo PMDB e ministro dos governos FHC, Lula e Dilma. Natural de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Jobim foi deputado da Assembleia Constituinte, atuando na elaboração da Constituição Federal de 1988.

Depois de ser ministro da Justiça de FHC, foi indicado pelo tucano ao STF, onde atuou como ministro entre 1997 e 2006, e depois foi ministro da Defesa (governos Lula e Dilma).

O traquejo ganho na atuação nos três poderes e o bom trânsito entre partidos poderia dar a Jobim simpatia de parlamentares da direita e da esquerda - e favorecer a potencial aceitação de seu nome para uma "sucessão controlada" até 2018.

Contra Jobim, entretanto, pesa o fato de ter atuado na defesa de acusados na Lava Jato e o fato de que uma das marcas da sua gestão, a negociação da compra de submarinos da França, estar sendo investigada. Além disso, Jobim é associado ao BTG Pactual, banco de investimentos que foi alvo da Lava Jato - no ano passado, tornou-se sócio do banco e membro de seu conselho de administração.

Pedro Parente

Pedro ParenteDireito de imagemYASUYOSHI CHIBAImage captionPresidente da Petrobras, Pedro Parente tem imagem de bom gestor desde que assumiu o cargo

Atual presidente da Petrobras, Pedro Parente teve a imagem de bom gestor confirmada pelo desempenho desde que assumiu a empresa no fim de maio do ano passado. As ações da empresa subiram 60% no período, depois de terem despencado no auge da crise com as revelações da Lava Jato.

Ao longo da carreira, transitou entre o setor público e privado, atuando tanto em empresas como no Banco do Brasil, no Banco Central e no governo FHC, no qual foi ministro da Casa Civil e coordenou a equipe de transição para o governo Lula.

É abertamente a favor das privatizações e à abertura do mercado brasileiro à concorrência estrangeira. Seu nome seria bem aceito pelo mercado e agradaria aos grupos que anseiam pela aprovação das reformas que vêm sendo implementadas por Temer, mas causaria polêmica entre grupos de esquerda.

Cármen Lúcia

Cármen LúciaDireito de imagemANDRESSA ANHOLETEImage captionA presidente do STF, Cármen Lúcia, negou a repórteres os rumores de que poderia assumir a presidência

A magistrada, natural de Montes Claros, Minas Gerais, tem 63 anos e assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal em 2016, atuando também como presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e professora e coordenadora do Núcleo de Direito Constitucional na PUC-MG.

Cármen Lúcia foi indicada ao STF pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, ocupando a vaga do ex-ministro Nelson Jobim e tornando-se a segunda mulher a integrar a corte. Foi a primeira mulher a presidir o TSE, entre 2012 e 2013.

Magistrados não podem ter filiação partidária e só podem se candidatar se se afastarem de suas funções seis meses antes. Ministros do STF como Cármen Lúcia ou Gilmar Mendes só poderiam se candidatar se essas regras fossem flexibilizadas.

Semana passada, Cármen Lúcia negou a repórteres os rumores de que poderia assumir a presidência, afirmando pretender continuar cumprindo a função de juíza "até o último dia". A seu favor, Cármen Lúcia tem a trajetória respeitada e sem alinhamentos partidários. Já a postura de linha dura contra a corrupção poderia ser vista com ressalvas por integrantes do Congresso que estejam sendo investigados.

Gilmar Mendes

Gilmar MendesDireito de imagemEVARISTO SAImage captionO ministro do STF, Gilmar Mendes, causou polêmica por declarações relativizando o pagamento de caixa 2 no financiamento de campanhas

Natural de Diamantino, no Mato Grosso, o magistrado de 61 anos é presidente do TSE e ministro do STF - talvez o integrante mais controverso da corte. Depois de exercer uma série de cargos públicos, foi advogado-geral da União do governo de Fernando Henrique Cardoso - que o indicou ao STF em 2002. A indicação provocou polêmica pela ligação de Mendes ao PSDB. O alinhamento ideológico com a sigla e os inúmeros embates com os governos petistas consolidaram a imagem de uma postura partidária. Assim, seu nome dificilmente seria aceito pela oposição e pelo PT.

Jurista respeitado, é autor de livros de referência e um dos fundadores do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), escola privada que oferece cursos de graduação e pós-graduação em Brasília. Nos meses recentes, Mendes causou polêmica por declarações relativizando o pagamento de caixa 2 no financiamento de campanhas eleitorais e por críticas à operação Lava Jato - o que pode lhe render simpatia de parte do Congresso desejosa de salvar sua pele, e ao mesmo tempo antipatia de grandes segmentos da sociedade.

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Quem seriam os 'presidenciáveis-relâmpago' para o caso de Temer cair


Caso Temer venha a renunciar, sofrer impeachment ou ter a chapa de 2014 cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - que julga a ação no próximo dia 6 -, o caminho previsto pela Constituição Federal prevê a realização de eleições indiretas dentro de 30 dias, a não ser que a oposição consiga se mobilizar para aprovar a proposta de emenda constitucional que permite convocar eleições diretas.

A eleição indireta seria realizada no Congresso e o candidato eleito ficaria no cargo até o término do mandato do atual presidente, 31 de dezembro de 2018.

Entre os nomes sendo aventados estão figuras que agradam ao mercado, como o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles e o presidente da Petrobras, Pedro Parente; ou que transitam bem entre os partidos, como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), da Defesa e da Justiça nos governos FHC, Lula e Dilma, Nelson Jobim.

Quem seria elegível ou não é outra questão, que dependerá das regras definidas para uma eventual eleição indireta, que não tem seus termos definidos por lei. Outra questão é se aceitariam ser considerados para o cargo - o próprio Jobim, disse em um evento nesta semana que não estaria interessado.

As regras de praxe para que um candidato seja elegível a presidente incluem a necessidade de filiação partidária e o afastamento prévio de cargos como o de magistrado, governador ou prefeito pelo menos seis meses antes do pleito.

Tais regras podem ser flexibilizadas para se adaptar ao curto prazo de uma eleição-relâmpago, diz José Guilherme Berman, professor de direito da PUC-Rio e advogado do BMA.

"Há uma tremenda incerteza sobre quem poderia de fato concorrer e sobre quais os requisitos para participar de uma eleição indireta", considera. "O desafio será encontrar um nome que não desperte controvérsia, que seja acima de qualquer suspeita, que pudesse guiar o país até as eleições de 2018."

Para João Augusto de Castro Neves, diretor para América Latina do Eurasia Group, um eventual candidato teria que apresentar credenciais anticorrupção, por um lado, e estar comprometido "com alguma versão" das reformas que vêm sendo propostas pelo governo Temer.

O difícil seria reunir os atributos desejáveis em uma só pessoa: "Todo nome tem algum probleminha. Estamos numa situação de polarização muito grande no Brasil. Não temos um unicórnio", diz, referindo-se à criatura das fábulas.

Conheça os principais nomes que estão sendo aventados para uma eventual eleição-relâmpago no Congresso:

Rodrigo Maia

Rodrigo MaiaDireito de imagemANDRESSA ANHOLETEImage captionRodrigo Maia é alvo de dois inquéritos da Lava Jato

Rodrigo Maia é visto como uma solução interna da Câmara dos Deputados. Foi eleito para a presidência da Câmara com o afastamento e posterior prisão de Eduardo Cunha, e foi reeleito para um biênio completo em fevereiro deste ano, após forte campanha do governo Temer a seu favor. O deputado do DEM chegou ao cargo aos 46 anos, em seu quinto mandato na casa. Natural do Rio de Janeiro, é filho do ex-prefeito e atual vereador do Rio Cesar Maia.

Em uma eventual queda de Temer, pesariam contra Maia seu alinhamento com Temer e, sobretudo, o fato de estar sendo investigado. Ele é alvo de dois inquéritos da Lava Jato. No primeiro, é acusado de receber propinas da Odebrecht para financiar campanhas do DEM; no segundo, é acusado de receber propina para aprovar uma medida provisória para desonerar a matéria-prima usada pela indústria química e beneficiar a Braskem, controlada pela Odebrecht.

Maia é favorável à reforma previdenciária e comprometido com a agenda econômica e de reformas do governo Temer. Já se declarou contrário à legalização da maconha e ao casamento gay (embora não à união civil entre pessoas de mesmo sexo). Maia é o primeiro na linha sucessória caso Temer seja afastado, mas tem se mantido fiel ao presidente. Depende dele aceitar ou não os pedidos de impeachment apresentados contra Temer; nesta semana, já arquivou parte dos pedidos protocolados para impedir o presidente.

Tasso Jereissati

Tasso JereissatiDireito de imagemEVARISTO SAImage captionSenador pelo Ceará, Tasso Jereissati mostra sua disposição em brigar pela aprovação da reforma trabalhista

Senador pelo Ceará, Tasso Jereissati, 68 anos, foi governador do Estado durante três mandatos e acaba de assumir interinamente a presidência do PSDB, após o afastamento do senador Aécio Neves, com as denúncias de recebimento de propina feitas por executivos da JBS. Natural de Fortaleza, Jereissati nasceu em uma família com tradição no ramo político e empresarial, filho do senador e industrial Carlos Jereissati.

Enveredou pelos negócios e tornou-se pioneiro no ramo de shopping centers no Brasil, ao lado do irmão, Carlos Francisco Jereissati. Mais tarde, mergulhou na política, e ao longo das últimas décadas concilia as duas atividades - atuando como um "gestor no governo", segundo um perfil da revista Forbes que descreve sua trajetória como "vitoriosa".

Alguns tucanos certamente gostariam de vê-lo eleito. Entretanto, um figurão do mesmo PSDB que saiu derrotado em 2014, e que foi um dos braços direitos durante a campanha do senador Aécio Neves, encontraria forte resistência de partidos de esquerda.

Enquanto se espera uma decisão do PSDB sobre se retira ou não o apoio ao combalido governo Temer, Jereissati mostra sua disposição em brigar pela aprovação da reforma trabalhista.

"Nós não devemos deixar o país degringolar em função da crise do governo", afirmou na segunda-feira. "Temos que ter responsabilidade com o nosso trabalho no dia a dia para não parar o Brasil e dar sinalização de que a anarquia está montada."

Henrique Meirelles

Henrique MeirellesDireito de imagemMIGUEL SCHINCARIOLImage captionO ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, seria bem visto pelo mercado e associado à manutenção da política econômica e a continuidade das reformas

Henrique Meirelles foi presidente do Banco Central durante todo o governo Lula (2003-2010) e voltou ao governo no ano passado, apontado ministro da Fazenda do governo de Michel Temer. Seu nome seria bem visto pelo mercado, associado à manutenção da política econômica e à continuidade no rumo das reformas que vêm sendo realizadas pelo governo Temer. Meirelles também tem como trunfo um bom trânsito com o PT, o PMDB e o PSDB.

Mas Meirelles está estreitamente ligado ao mesmo grupo JBS cuja delação agora ameaça derrubar Temer. Foi presidente do conselho de administração da J&F entre 2012 e 2016, grupo controlador da JBS. Há temores, ainda, de que possa vir a ser citado em eventuais delações premiadas do deputado cassado Eduardo Cunha e do doleiro Lúcio Funaro - cujo silêncio o executivo Joesley Batista indicou estar comprando na conversa que gravou secretamente com o presidente Michel Temer.

E o fato de seu nome já ter sido cotado para presidência sugerem que ele poderia querer buscar uma reeleição em 2018, não se contentando apenas em fazer a transição até lá.

Nelson Jobim

Nelson JobimDireito de imagemVANDERLEI ALMEIDAImage captionEx-ministro e ex-presidente do STF, Nelson Jobim tem bom trânsito entre partidos, mas contra ele pesa o fato de ter atuado na defesa de acusados na Lava Jato

Nelson Jobim é visto como um nome forte para uma eventual eleição indireta por ter boa aceitação entre PMDB, PSDB e PT, tendo sido deputado pelo PMDB e ministro dos governos FHC, Lula e Dilma. Natural de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Jobim foi deputado da Assembleia Constituinte, atuando na elaboração da Constituição Federal de 1988.

Depois de ser ministro da Justiça de FHC, foi indicado pelo tucano ao STF, onde atuou como ministro entre 1997 e 2006, e depois foi ministro da Defesa (governos Lula e Dilma).

O traquejo ganho na atuação nos três poderes e o bom trânsito entre partidos poderia dar a Jobim simpatia de parlamentares da direita e da esquerda - e favorecer a potencial aceitação de seu nome para uma "sucessão controlada" até 2018.

Contra Jobim, entretanto, pesa o fato de ter atuado na defesa de acusados na Lava Jato e o fato de que uma das marcas da sua gestão, a negociação da compra de submarinos da França, estar sendo investigada. Além disso, Jobim é associado ao BTG Pactual, banco de investimentos que foi alvo da Lava Jato - no ano passado, tornou-se sócio do banco e membro de seu conselho de administração.

Pedro Parente

Pedro ParenteDireito de imagemYASUYOSHI CHIBAImage captionPresidente da Petrobras, Pedro Parente tem imagem de bom gestor desde que assumiu o cargo

Atual presidente da Petrobras, Pedro Parente teve a imagem de bom gestor confirmada pelo desempenho desde que assumiu a empresa no fim de maio do ano passado. As ações da empresa subiram 60% no período, depois de terem despencado no auge da crise com as revelações da Lava Jato.

Ao longo da carreira, transitou entre o setor público e privado, atuando tanto em empresas como no Banco do Brasil, no Banco Central e no governo FHC, no qual foi ministro da Casa Civil e coordenou a equipe de transição para o governo Lula.

É abertamente a favor das privatizações e à abertura do mercado brasileiro à concorrência estrangeira. Seu nome seria bem aceito pelo mercado e agradaria aos grupos que anseiam pela aprovação das reformas que vêm sendo implementadas por Temer, mas causaria polêmica entre grupos de esquerda.

Cármen Lúcia

Cármen LúciaDireito de imagemANDRESSA ANHOLETEImage captionA presidente do STF, Cármen Lúcia, negou a repórteres os rumores de que poderia assumir a presidência

A magistrada, natural de Montes Claros, Minas Gerais, tem 63 anos e assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal em 2016, atuando também como presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e professora e coordenadora do Núcleo de Direito Constitucional na PUC-MG.

Cármen Lúcia foi indicada ao STF pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, ocupando a vaga do ex-ministro Nelson Jobim e tornando-se a segunda mulher a integrar a corte. Foi a primeira mulher a presidir o TSE, entre 2012 e 2013.

Magistrados não podem ter filiação partidária e só podem se candidatar se se afastarem de suas funções seis meses antes. Ministros do STF como Cármen Lúcia ou Gilmar Mendes só poderiam se candidatar se essas regras fossem flexibilizadas.

Semana passada, Cármen Lúcia negou a repórteres os rumores de que poderia assumir a presidência, afirmando pretender continuar cumprindo a função de juíza "até o último dia". A seu favor, Cármen Lúcia tem a trajetória respeitada e sem alinhamentos partidários. Já a postura de linha dura contra a corrupção poderia ser vista com ressalvas por integrantes do Congresso que estejam sendo investigados.

Gilmar Mendes

Gilmar MendesDireito de imagemEVARISTO SAImage captionO ministro do STF, Gilmar Mendes, causou polêmica por declarações relativizando o pagamento de caixa 2 no financiamento de campanhas

Natural de Diamantino, no Mato Grosso, o magistrado de 61 anos é presidente do TSE e ministro do STF - talvez o integrante mais controverso da corte. Depois de exercer uma série de cargos públicos, foi advogado-geral da União do governo de Fernando Henrique Cardoso - que o indicou ao STF em 2002. A indicação provocou polêmica pela ligação de Mendes ao PSDB. O alinhamento ideológico com a sigla e os inúmeros embates com os governos petistas consolidaram a imagem de uma postura partidária. Assim, seu nome dificilmente seria aceito pela oposição e pelo PT.

Jurista respeitado, é autor de livros de referência e um dos fundadores do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), escola privada que oferece cursos de graduação e pós-graduação em Brasília. Nos meses recentes, Mendes causou polêmica por declarações relativizando o pagamento de caixa 2 no financiamento de campanhas eleitorais e por críticas à operação Lava Jato - o que pode lhe render simpatia de parte do Congresso desejosa de salvar sua pele, e ao mesmo tempo antipatia de grandes segmentos da sociedade.

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Por que é tão difícil frear a escalada da obesidade infantil? Taís Seibt De Porto Alegre para a BBC Brasil

A explosão de obesidade na população brasileira adulta, revelada na última semana pela Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), tem impacto direto no avanço do sobrepeso entre as crianças. Afinal, elas não aprendem sozinhas a tomar refrigerante enquanto jogam videogame, não é?

O levantamento anual do Ministério da Saúde identificou um crescimento de 60% no número de adultos obesos nos últimos dez anos: um em cada cinco brasileiros adultos está nesta situação - e metade da população está acima do peso. A estatística é alta também entre as crianças: um em cada três brasileiros já apresenta excesso de peso na infância.

Os indicadores sobre obesidade infantil são da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, cujos dados mais recentes são referente a 2008-2009. A Vigitel analisa o comportamento alimentar apenas de pessoas maiores de 18 anos, em todas as capitais brasileiras. Mas o Ministério da Saúde, ao apresentar os dados da pesquisa, destacou a importância de ações também voltadas a crianças e adolescentes.

Já chega a 16,6% o índice de meninos obesos com idade entre 5 e 9 anos e a 11,8% entre as meninas na mesma faixa etária, segundo a POF 2008-2009. A título de comparação, em 1974-1975, as taxas eram de 10,9% entre meninos e 8,6% entre meninas.

O Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (Erica), de 2015, indica que 8,4% dos adolescentes brasileiros estão obesos e 25,5% dos adolescentes de 12 a 17 anos estão com excesso de peso.

Para especialistas ouvidos pela BBC Brasil, o mau exemplo dos pais e a sofisticação da propaganda de produtos industrializados são os principais entraves para enfrentar o problema.

Propaganda desigual

O coordenador científico do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Augusto Monteiro, atuou na elaboração do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, e considera a propaganda o principal motor para o crescimento do consumo de alimentos ultraprocessados nos últimos anos.

São considerados assim alimentos como biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, refrigerantes, macarrão instantâneo, lasanhas prontas, entre outros do gênero.

Menino acima do peso com hamburquerDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionPara especialistas, a obesidade infantil é difícil de tratar porque depende muito dos adultos

"A propaganda é desigual. Enquanto a indústria apresenta um material muito sofisticado, que passa uma mensagem sobre você ser mais bacana se consumir tal produto, o governo é omisso em campanhas de saúde pública", analisa Monteiro.

Para o pesquisador, essa propaganda vende também uma certa ideologia de praticidade, que contamina o imaginário dos pais, verdadeiros responsáveis pela alimentação dos pequenos.

"Não há tanta diferença entre o tempo de preparo de um macarrão normal com molho de tomate e um macarrão instantâneo", avalia.

Regulamentação e exemplo

Além da propaganda, as embalagens também contribuem para atrair consumidores a produtos com propriedades sensoriais inversamente proporcionais ao seu valor nutricional. "Um suco de laranja em pó, por exemplo, tem 1% de polpa de laranja, mas a embalagem mostra uma laranja enorme, colorida", exemplifica Monteiro.

O mesmo vale para dizeres como "rico em fibras" e frases similares, as quais o pesquisador da USP classifica como "alegações saudáveis falsas". Medidas regulatórias poderiam barrar esse tipo de apelo ou mesmo restringir a propaganda de certos produtos, como ocorre em países como França, Canadá e Inglaterra.

Um ponto fundamental na formação de uma geração que tenha menos problemas com a balança é o exemplo dos pais. "A criança precisa ter referências do que é uma alimentação variada e saudável", frisa a pediatra nutróloga Elza Mello, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Homem e garoto com sobrepesoDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionÉ preciso dar bons exemplos, já que parte dos hábitos das crianças decorre do que elas veem os pais fazerem

A especialista destaca que a preocupação com os hábitos alimentares deve vir desde a gestação. "O líquido amniótico transfere sabor, então, a criança pode já nasce predisposta a preferir certos alimentos de acordo com a dieta da mãe", explica Mello, que também atua no setor de Gastroenterologia Pediátrica do Hospital das Clínicas de Porto Alegre.

De acordo com a pediatra nutróloga Márcia Schneider, integrante da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul, o tratamento da obesidade infantil é difícil porque depende muito dos adultos. "O tratamento não deve ser só no consultório, mas em casa, na escola. Quem compra o refrigerante? Quem dá o tablet?", questiona a médica.

O que fazer?

Os especialistas são unânimes: dar exemplo é o primeiro passo. Boa parte da educação das crianças decorre do que elas veem os pais fazerem. Vale o mesmo para a dieta.

"Os pais veem os pequenos como vulneráveis, o que de fato são, e querem fazer tudo certo. Nessa perspectiva, a chegada de uma criança pode ser uma motivação para repensar a relação de todos com a comida", observa o pesquisador da USP Carlos Augusto Monteiro.

Garoto obeso sentado em banco em ginásio de colégioDireito de imagemSCIENCE PHOTO LIBRARYImage captionNão mandar raspar o prato é uma medida simples e eficaz para combater a obesidade infantil

Evitar ao máximo oferecer sucos e refrigerantes aos pequenos é outra recomendação. Mesmo sucos naturais são altamente calóricos, lembra a pediatra Elza Mello. Além do excesso de calorias, a ingestão frequente dessas bebidas acostuma o paladar da criança desde cedo e pode acabar fazendo com que ela rejeite beber água.

Não mandar raspar o prato é uma medida simples e eficaz. As mães esperam que a criança consuma porções iguais de alimento todos os dias e costumam obrigá-las a comer até o fim, mas esse comportamento é equivocado, diz a especialista.

"Há dias em que a criança tem menos fome, e é preciso respeitar. Assim, ela irá crescer com a ideia de que só precisa comer até o cérebro saber que está satisfeito", explica.

Por fim, é comum os pais se preocuparem mais em fazer a criança comer direito do que em observar como (e se) ela gasta toda essa energia.

"É preciso limitar o uso de mídias que incentivam o sedentarismo e promover a prática de atividades físicas em todas as idades. Para crianças pequenas, atividades lúdicas, como jogos, funcionam bem. Adolescentes podem até fazer musculação, desde que sem sobrecarga", sugere a pediatra Márcia Schneider.

Ação do governo

Questionado sobre desafios e medidas do governo federal no combate à obesidade infantil, o Ministério de Saúde enumerou uma série de ações em curso, como controle de ganho de peso e promoção de alimentação saudável na gestação.

Citou ainda o programa Saúde na Escola, em integração com a pasta da Educação, que pode identificar estudantes com excesso de peso ou risco nutricional e encaminhá-los a serviços de saúde.

Ainda segundo o ministério, o governo fornece materiais a professores para uso em atividades de promoção da alimentação saudável e apoia uma norma de venda de alimentos para bebês que controla a publicidade de produtos que concorram com a amamentação - prática que é considerada como meio de prevenção da obesidade.

A pasta disse reconhecer a necessidade de avançar além de ações de promoção de alimentação adequada.

"É preciso melhorar a rotulagem nutricional para apoiar escolhas mais saudáveis, proibir a venda de refrigerantes e outros alimentos ultraprocessados não saudáveis nas escolas e regular a publicidade de alimentos direcionada ao público infantil, para proteger as crianças da exposição a alimentos não saudáveis", afirmou em nota.

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Irmã de ‘mulher mais obesa do mundo’ acusa médicos de mentir sobre perda de 250 kg após operação

A irmã da egípcia Eman Abd El Aty, conhecida como "a mulher mais obesa do mundo", acusou os médicos de mentirem sobre a perda de peso dela após passar por uma cirurgia na Índia.

Eman foi operada no hospital Saifee, em Mumbai. Na semana passada, a instituição médica divulgou que ela havia perdido 250 kg.

Mas a irmã da mulher contestou o hospital. Disse ainda que o estado de saúde de Eman é delicado porque ela pode ter sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) durante a internação. O hospital negou veementemente as acusações.

A controvérsia começou na última segunda-feira, quando a irmã de Ema, Shaimaa Selim, divulgou um vídeo na internet dizendo que sua irmã não está conseguindo falar nem se movimentar e que Eman não teria perdido tanto peso quanto diz o hospital.

Nesta terça-feira, Shaimaa falou à BBC: "Ele (médico Muffazal Lakdawala, que comandou a cirurgia) não a pesou antes e depois da operação. Se ele tiver alguma prova da perda de peso, que nos mostre então quanto ela pesava antes e depois."

Shaimaa diz que o estado de saúde de sua irmã é frágil. "O nível de oxigênio em seu corpo não está normal. Ela tem que respirar com uma máscara o tempo todo. Tem um tubo que vai do nariz ao estômago, porque ela não consegue comer ou beber pela boca."

Uma porta-voz do hospital disse à BBC que Eman foi pesada novamente na segunda-feira e que, agora, ela estaria com 172 kg.

Pelo Twitter, o médico Lakdawala negou ter mentido. "Shaimaa Selim, você matou a humanidade com um só golpe. Que Deus te ajude quando você perceber o que fez. Continuarei a tratar e rezar por Eman", afirmou.

Eman talking to her doctorDireito de imagemSAIFEE HOSPITALImage captionEman com o médico que a atendeu

Obesidade mórbida

Hoje com 36 anos, Eman nasceu com mais de 6 kg e foi diagnosticada com elefantíase, uma doença parasitária que causa inchaço extremo dos braços e das pernas.

Aos 11 anos, ela teve um AVC. Em razão da obesidade - ela chegou a 500 kg -, Eman não conseguiu sair de casa, em Alexandria, por 25 anos.

Ela foi levada de avião em janeiro ao hospital na Índia, onde realizou um regime e, em março, submetida a uma cirurgia bariátrica, realizada por uma equipe liderada por Lakdawala.

Esse tipo de operação é usada como último recurso em casos de obesidade mórbida, quando o Índice de Massa Corporal (IMC) de uma pessoa é igual ou superior a 40 - ou 35 para quem tem problemas de saúde relacionados a excesso de peso.

Existem diferentes técnicas. Em uma delas, parte do estômago é grampeada, e o intestino é desviado de forma que menos alimentos sejam digeridos e a pessoa tenha a sensação de saciedade.

Na outra, uma banda de silicone é colocada em volta do estômago, reduzindo a quantidade de alimentos necessária para saciar uma pessoa.

O hospital diz que Eman consegue agora usar cadeira de rodas e ficar sentada por um período maior de tempo, e divulgou fotos dela após a operação.

EmanDireito de imagemSAIFEE HOSPITALImage captionEgípcia foi submetida a uma cirurgia bariátrica na Índia em março

A irmã também manifestou insatisfação com a perspectiva de alta de Eman, que considera prematura.

"Há casos assim em outros lugares do mundo. Eles ficam no hospital por um ou dois anos para perder peso e voltar ao normal. Mas, depois de só um ou dois meses aqui, os médicos dizem que minha irmã pode retornar. Perguntei a eles como isso é possível, já que ela ainda está muito obesa", disse a irmã de Eman.

"E se algo acontecer no Egito? Como vou levá-la a uma hospital lá? Seria impossível, e ninguém me ajudaria. Eu pedi: 'Por favor, a mantenham aqui por mais tempo para ajudá-la a perder peso.'."

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'Acordei um dia e, de repente, estava com acne grave por todo o rosto’

Judith Donald tinha 23 anos quando passou a sofrer com espinhas. De repente, da noite para o dia, ela sofreu um golpe que abalou sua autoconfiança.

"Acho que as pessoas não têm ideia de quanto isso pode lhe afetar mentalmente", afirma.

Ela evitava sair porque não queria ser vista em público. Tinha problemas para dormir pela dor que a acne lhe causava.

Os colegas de trabalho perguntavam se ela tinha catapora porque, além do rosto, ostentava manchas vermelhas por todo o corpo.

A situação de Judith ficou tão complicada que foi preciso tomar um medicamento cujos efeitos colaterais podem ser enxaqueca, fadiga crônica e até depressão.

Dois anos depois, ela conta como desenvolveu acne severa e relata como tem enfrentado o problema.

"Eu acordei uma manhã e tinha protuberâncias no queixo e na testa. Elas foram só ficando piores - nem uma grande quantidade de maquiagem era capaz de cobri-las", recorda Judith. "Elas se transformaram em acne cística, que pode ser muito dolorida e demora demais para sumir."

 

Como venci a acne e recuperei minha autoestima

Durante a adolescência, Judith tinha algumas espinhas, mas, segundo ela, nada parecido com a experiência que enfrentou após completar 23 anos.

Inicialmente ela pensou ser uma reação alérgica à maquiagem ou ao produto que usava para limpar o rosto. Mas a acne se espalhou pelo queixo, testa, costas, ombros e peito. "Foi brutal."

Moradora de Glasgow, na Escócia, Judith foi a diferentes médicos e tomou antibióticos, mas nada funcionava. "Ficou pior e eu parei de sair. Parei de ir à academia porque não queria que ninguém me visse sem maquiagem", conta.

Ela disse que mudou a alimentação e tentou diferentes cremes, mas ouviu de uma dermatologista que acne está relacionada com genética.

"Meus irmãos tiveram acne na puberdade, mas nada se compara ao que eu tive", conta.

Judith DonaldDireito de imagemJUDITH DONALDImage captionJudith diz que na adolescência teve espinhas mas o problema ficou grave quando completou 23 anos

Mecanismos da acne

O professor John Hawk, especialista em dermatologia, disse à rádio BBC Escócia que o histórico familiar indica a tendência a desenvolver acne, mas não a gravidade da doença. Segundo ele, é difícil dizer porque o problema se desenvolveu tão rápido em Judith, depois dos 20 anos.

"Obviamente, Judith tinha problemas menores antes, quando era adolescente. Então, ela tinha uma tendência e a tendência é genética. Esse é o problema básico. Não tinha nada a ver com dieta ou lavar o rosto", observa Hawk.

Segundo ele, é um problema genético no qual os poros são bloqueados pela produção excessiva de óleo.

"Se os poros ficam bloqueados, as glândulas produtoras de óleo incham e se enchem de bactérias. Então as glândulas estouraram como um balão e causam um problema enorme debaixo da pele", diz.

O professor Hawk diz que a acne provoca danos psicológicos para qualquer um, até mesmo em casos mais brandos. Há tratamento, segundo o professor, em 99% dos casos, ainda que dure muitos meses.

Judith conta que o dermatologista dela sugeriu, em julho do ano passado, um medicamento chamado isotretinoína, prescrito para casos muito graves. Ela esperou até novembro para usá-lo por causa dos efeitos colaterais.

Ela conta que teve enxaquecas nos primeiros dois meses, cansaço nos três meses iniciais e sangramento da mucosa nasal, além de olhos e lábios ressecados. "Também desenvolvi eczema nas mãos", afirma. "Mas, apesar disso, não acho que tive muitos problemas com o medicamento."

Judith admite, contudo, que o cansaço era extremo. Ela afirma que tinha que dormir duas horas depois do trabalho para conseguir jantar. Dormia de dez a 11 horas por dia.

Doses elevadas

"Todos os efeitos colaterais valem pelo jeito como me sentia com minha acne", admite Judith. Ela conta que se odiava e odiava estar ao redor de garotas com a pele perfeita.

Hawk diz que já tratou milhares de pessoas com isotretinoína e o medicamento, segundo ele, não é conhecido por provocar enxaqueca ou fadiga crônica com frequência.

"Causa um número de coisas, como ressecamento da pele e, realmente, pode provocar deformação de bebês caso a mulher fique grávida enquanto toma o medicamento. Mas, normalmente, não causa mais nada", diz o dermatologista.

Judith DonaldDireito de imagemJUDITH DONALDImage captionPele e olhos mais secos é um dos efeitos do medicamento indicado para casos grave de acne

Há ainda, admite o especialista, o risco de o remédio causar uma irritação leve no fígado e pode fazer subir o colesterol, mas não a níveis suficientes para se transformar num problema.

"Doses elevadas podem causar problemas, mas, normalmente, baixa dosagem costuma funcionar bem", afirma.

O professor diz ainda que costuma prescrever de 20 a 30 miligramas do medicamento para pacientes com o mesmo peso de Judith. No caso dela, a dosagem foi de 60 miligramas.


Isotretinoína

Licenciado no Reino Unido em 1983, o medicamento é usado em casos de acne severa em pacientes que tentaram outros tipos de tratamentos.

No Brasil, o medicamento consta na lista da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) desde 1998 como sujeito a controle especial.

Tanto no Brasil quanto no Reino Unido o medicamento só pode ser usado com prescrição médica. O uso indiscriminado da isotretinoína já foi alvo de questionamentos.

A Roche informa que 17 milhões de pessoas em todo mundo usam o Roacutan, uma das marcas comerciais da isotretinoína, e que não há ligação entre o uso da medicação com depressão e suicídio.


Judith DonaldDireito de imagemJUDITH DONALDImage captionJudith reclama que nenhuma maquiagem era capaz de cobrir suas espinhas

Segundo o professor Hawk, a depressão é um efeito ligado ao medicamento desde que ele foi introduzido nos anos 1980. Mas o especialista pondera que, normalmente, quem usa esse remédio já está deprimido por ter acne severa.

Uma parte dos pacientes é adolescente e corre o risco de sofrer com depressão por circunstâncias sociais, avalia o especialista.

"Há evidência forte de que o medicamento não causa depressão por causa das porcentagens similares entre os com depressão que usam e que não usam o remédio", afirma Hawk. Para o professor, há uma aura negativa em torno do medicamento que é completamente injustificada.

Judith DonaldDireito de imagemJUDITH DONALDImage captionO tratamento de Judith deve durar mais dois meses

O remédio, contudo, não é indicado para qualquer paciente.

"Para acne leve, você pode usar, por exemplo, peróxido de benzoíla por dois ou três meses, que tende a resolver as coisas", completa o professor. Já no caso de manchas vermelhas, que são incômodas mas não foram diagnosticadas como cisto, há antibióticos. "Isotretinoína é para acne severa", afirma Hawke.

Judith tem tomado o medicamento para acne severa por quatro meses e contabiliza mais dois meses de tratamento.

Ela diz: "Estou muito mais confiante. Eu vou à academia sem maquiagem. Já fez uma diferença fenomenal. Mudou completamente minha vida."

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Por que uso de véu por indústria da moda no Ocidente está irritando algumas mulheres muçulmanas?

Um número crescente de empresas tem inserindo aos poucos o véu islâmico em suas produções e anúncios.

No entanto, a investida não tem agradado a algumas mulheres que seguem a religião muçulmana.

Dolce&Gabbana, H&M e Nike foram algumas marcas a incluírem mulheres usando o hijab, o tradicional véu islâmico que cobre a cabeça, como destaque em suas campanhas publicitárias.

O hijab, aliás, é um tema constante em debates sobre feminismo, religião e conservadorismo.

Muitas comunidades na internet discutem os significados do uso do véu para as mulheres. Mas desta vez o questionamento foi à potencial banalização de um símbolo sagrado.

A jornalista Tasbeeh Harwees recentemente escreveu na revista Good sobre uma propaganda da Pepsi que viralizou, usando a modelo Kendall Jenner.

O anúncio já era polêmico por conta da alegação de que banalizava os protestos de rua - mas algumas mulheres muçulmanas não gostaram dele por um motivo diferente. Na peça, havia uma mulher fotografando o protesto. E usando um hijab.

"Uma empresa multibilionária estava usando a imagem de uma mulher muçulmana para projetar uma imagem de progresso que ela própria sequer pode viver", disse Harwees à BBC.

Poder da marca

Já a Nike anunciou recentemente que está desenvolvendo um véu específico mulheres que praticam esportes - e que chegará às lojas em 2018.

A H&M usou a primeira modelo com hijab em uma peça publicitária, e outras inúmeras marcas lançaram campanhas com as chamadas "Coleção Ramadã", com o objetivo de atrair mulheres muçulmanas.

"Imagens de mulheres muçulmanas comunicam para os consumidores desses produtos que essas marcas são extremamente progressistas e inclusivas", afirma Harqee.

"Considerando o clima político em que vivemos, tornou-se socialmente conveniente alinhar com as minorias ou excluídos. E, para muitas pessoas, as mulheres muçulmanas representam isso."

Kendall JennerDireito de imagemPAImage captionKendall Jenner fez parte de um comercial da Pepsi em que o hijab também era retratado

O crescimento da popularidade dos chamados "blogs da moda para hijab" ou outros oferecendo tutoriais de maquiagem para mulheres que usam o véu proporcionou uma intensificação do debate sobre o tema. Eles geram milhões de visualizações, compartilhamentos e discussões.

Mas algumas mulheres contam que há uma pressão crescente para elas "entrarem na moda" e citam esse como um dos motivos pelos quais elas param de usar o hijab.

O sentimento é de que o véu islâmico pode estar sendo minado pelo comércio. Khadija Ahmed, editora da revista online Another Lenz, contou em um texto pessoal como ela optou por usar o hijab por dois anos, e depois tomou a decisão de não usá-lo mais.

À BBC, Ahmed disse que se sentia pressionada pelas imagens que via em anúncios publicitários e nas redes sociais.

"Eu não sinto que as marcas agem como se estivessem nos fazendo um favor. Não precisamos do 'ok' das empresas mais famosas do mundo para aprovar nossa identidade", pontuou Ahmed.

Modelo da Nike com hijabDireito de imagemREUTERSImage captionA empresa de material esportivo Nike lançou hijab esportivo

"Elas não estão fazendo nada pela comunidade muçulmana, só estão reduzindo o significado do hijab - que, para mim, é um ato de louvor - a algo tão simples como uma tendência da moda."

Do outro lado, há também um posicionamento forte de grupos feministas contrários ao uso do véu pelas mulheres muçulmanas, principalmente nos países onde ele ainda é obrigatório. Masih Alinejad é uma ativista iraniana e jornalista que começou uma campanha no Facebook, chamada "Minha liberdade furtiva", que mostrava mulhares tirando seu hijab em um gesto de desafio à ordem de trajá-lo.

"Acho que às vezes a mídia no Ocidente quer normalizar a questão do hijab. Quer falar sobre minoria islâmica no Ocidente, mas se esquece de que existem milhões de mulheres em países muçulmanos que são obrigadas a usar o hijab", afirmou Alinejad.

"Se você quer falar sobre o véu e usá-lo como um símbolo de feminismo ou de resistência, você precisa pensar naquelas meninas e mulheres que são forçadas a usá-lo."

Motivos

Mas se há potencial para tanto debate e polêmica, por que as empresas estão querendo tanto mostrar essa vestimenta religiosa em particular?

Hend AmryDireito de imagemHEND AMRYImage captionHend Amry é considerada a "rainha do Twitter muçulmano"

Shelina Janmohamed, vice-presidente da agência de publicidade Ogilvy Noor, diz que a empresa está ajudando seus clientes a propagar seus produtos para muçulmanos ao redor do mundo.

"Nesse momento, há um segmento de consumidores muçulmanos crescente", ela diz. "Eles têm aspirações de estilo de vida e isso deveria ser refletido nos produtos."

Janmohamed explicou quem assim como as marcas refletem outros estilos de vida para agradar outros tipos de público, essa seria a mesma lógica para muçulmanos

"Isso é uma questão de negócios."

Apesar das críticas, essa abordagem também teve algum apoio de feministas muçulmanas. Hend Amry, chamada de "rainha do Twitter muçulmano", consegue ver o lado positivo sobre esse destaque que o véu islâmico tem recebido no mundo da moda.

"Existem mulheres muçulmanas que usam hijab e tuítam essas reações divertidas ou compartilham sua sabedoria, além de mostrar personalidades fortes ", diz ela.

"Apenas fazendo isso, já é possível acabar um pouco com os estereótipos da mulher muçulmana dócil, oprimida e silenciada, e isso é realmente empolgante ".

"Acho que só há uma mudança que precisa ser feita: as mulheres muçulmanas precisam contar suas próprias histórias. Uma vez que isso acontecer, as narrativas falarão por si só", acrescenta.

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Hackers podem decifrar senhas a partir da maneira como você inclina o celular ao digitar

Especialistas em informática britânicos lançaram um alerta sobre a forma como sites e aplicativos maliciosos podem usar sensores embutidos nos nossos celulares e tablets para acessar informações confidenciais.

Analisando os movimentos do aparelho à medida que digitamos a informação, os pesquisadores da Newcastle University, em Newcastle Upon Tyne, nordeste da Inglaterra, demonstraram que é possível decifrar senhas de quatro dígitos com precisão de 70% na primeira tentativa e 100% na quinta. Isso é feito com base apenas em dados coletadas pelos vários sensores contidos nos aparelhos.

O estudo foi publicado recentemente na revista de segurança em informação International Journal of Information Security.

Ao todo, a equipe identificou 25 sensores diferentes instalados na maioria dos aparelhos e usados para coletar informações variadas sobre o dispositivo e seu usuário. Um pequeno número deles - como a câmera e o GPS - pede permissão ao usuário para acesso aos dados coletados pelos sensores.

"A maioria dos smartphones, tablets e wearables (aparelhos que você usa no seu corpo, como smartwatches) está agora equipada com vários sensores, dos conhecidos GPS, câmera e microfone, a instrumentos como o giroscópio (que calcula direção), sensores de proximidade, NFC (transmissor de dados sem fio), sensores de rotação e acelerômetro", disse Maryam Mehrnezhad, pesquisadora da Escola de Ciência da Computação da da Newcastle University e principal autora do estudo.

"Mas como apps e websites não precisam pedir permissão para acessar a maioria (desses sensores), programas maliciosos podem "ouvir" secretamente os dados colhidos pelos sensores e usá-los para descobrir uma ampla gama de informações confidenciais sobre você, como horários de ligações telefônicas, atividade física e até todas as teclas que você pressionou, senhas e códigos."

Páginas da internet em smartphoneDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionAcesso a sites com códigos maliciosos pode deixar seu celular vulnerável

A equipe descobriu algo que considera ainda mais preocupante.

Em alguns navegadores, se o usuário acessa uma página no seu telefone que contém um desses códigos maliciosos e depois abre, por exemplo, sua conta bancária sem fechar a aba anterior, os programas malignos podem espiar todos as informações que a pessoa digita.

"E pior: em alguns casos, ao menos que você os feche (os navegadores) completamente, eles podem espionar seus dados mesmo quando seu aparelho está bloqueado", acrescentou a especialista.

Espionando o usuário

Apesar dos riscos envolvidos, o estudo mostra que o público não sabe dos perigos e a maioria de nós tem pouquíssima ideia do que fazem grande parte desses sensores.

As grandes empresas de informática estão conscientes do problema, mas até agora ninguém foi capaz de encontrar uma solução. Segundo Mehrnezhad, isso acontece porque as companhias têm de equilibrar as vantagens que os sensores trazem e seus riscos.

"É uma batalha entre utilidade e segurança", diz.

Pessoa ao celularDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionMuitos dos usuários desconhecem armadilhas de hackers 'do mal'

"Todo mundo quer o telefone de última linha, que tem os dispositivos mais recentes e que oferece uma melhor experiência para o usuário, mas não há uma forma padronizada de utilização dos sensores pela indústria e eles representam uma ameaça à nossa segurança pessoal."

Uma alternativa, ela sugere, seria negar o acesso do navegador aos sensores. "Mas não queremos perder todos os benefícios associados aos sensores de movimento embutidos", ela diz.

Quebra-cabeças

O estudo concluiu que cada toque do usuário - clicar, descer a página, segurar ou dar toques rápidos - produz um traço único de orientação e de movimento. Assim, na página de um site, a equipe foi capaz de determinar em que parte da página o usuário estava clicando e o que estava digitando.

"É como fazer um quebra-cabeças. Quanto mais peças você junta, mais fácil fica de ver a imagem", explicou Siamak Shahandashti, pesquisadora da Escola de Ciência da Computação e coautora do estudo.

"Dependendo da forma como digitamos - se você segura o telefone em uma mão e usa seu polegar, se segura com uma mão e digita com a outra, se toca ou desliza - o aparelho vai ser inclinado em uma certa direção e é muito fácil identificar padrões associados com 'assinaturas de toque' que usamos regularmente."

"Então, cada sensor interno oferece uma parte diferente do quebra-cabeças."

Uso do celular como monitor de movimentosDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionMonitoramento da movimentação do usuário por apps também é alvo de análise

Nesse momento, a equipe britânica se dedica a investigar riscos adicionais gerados por monitores de saúde inseridos nos aparelhos e vinculados ao perfil pessoal do usuário.

Esses sensores podem, potencialmente, ser usados para interpretar movimentos sutis no punho de um indivíduo, assim como movimentos mais amplos - sentar, caminhar ou correr, entre outros.

Proteja-se

Como resultado do estudo britânico, os responsáveis por navegadores como Mozilla, Firefox e Apple Safari resolveram parcialmente o problema. A equipe de Newcastle, no entanto, continua trabalhando com a indústria em busca de uma solução definitiva.

Nesse ínterim, os especialistas fazem algumas recomendações simples para a proteção dos usuários:

- Mude regularmente suas senhas para que os programas maléficos não tenham tempo de decifrá-las.

- Feche aplicativos de fundo quando não estão sendo usados e retire aplicativos de que não precisa mais.

- Mantenha seu sistema operacional e aplicativos atualizados

- Instale apenas aplicativos aprovados pela indústria

- Avalie que tipo de permissões os aplicativos no seu telefone já possuem

- Leia cuidadosamente os pedidos de permissões feitos pelos aplicativos antes de instalá-los e, se necessário, escolha alternativas que requerem permissões mais sensatas

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Sete perguntas sobre a crise com a Coreia do Norte – e as possibilidades de uma guerra

O Japão mobilizou seu maior navio de guerra na primeira operação do tipo desde que o país aprovou uma polêmica legislação ampliando o papel de sua força militar, no momento em que a região passa por uma escalada na tensa relação entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte.

O porta-helicópteros Izumo está escoltando um navio americano de abastecimento que cruza as águas japonesas rumo à frota naval dos EUA na região - onde está o porta-aviões Carl Vinson, enviado pelo presidente Donald Trump.

No fim de semana, Trump disse que gostaria de resolver a crise diplomaticamente, mas reconheceu que um "conflito muito grande" seria uma possibilidade.

A grande preocupação dos EUA e países vizinhos à Coreia do Norte, como Coreia do Sul e Japão, é com o poderio nuclear e militar do país comunista, quem, apesar de ameaças de sanções, segue realizando testes de mísseis.

O governo americano diz que endurecerá as sanções econômicas contra Pyongyang e que ativará um sistema de defesa antimísseis na Coreia do Sul.

A Coreia do Norte, por sua vez, ameaçou afundar o porta-aviões americano deslocado para a região e prometeu realizar mais testes de mísseis.

A China, um dos poucos países a se relacionar com o governo norte-coreano, pediu negociação e diálogo entre os países.

Após os últimos desenvolvimentos nessa crise, o analista de Defesa e Diplomacia da BBC Jonathan Marcus responde às principais dúvidas sobre o conflito.


Qual o impacto esperado de novas sanções?

Apesar de já existirem sanções contra a Coreia do Norte, elas não são colocadas em prática ou monitoradas de forma devida. Um estudo recente da ONU analisou fragmentos de um teste de míssil norte-coreano e mostrou que os componentes eletrônicos vinham de empresas chinesas ou foram conseguidos através da China.

Ou seja, a China poderia fazer muito mais do que faz para pressionar o regime de Kim Jong-un. O problema é que Pequim não quer ver o regime norte-coreano entrar em colapso.

As sanções existentes poderiam ser endurecidas e que, principalmente no lado financeiro, poderiam dificultar as coisas para Pyongyang.

O problema é que sanções mais abrangentes podem afetar a população, que há décadas enfrenta ciclos de fome.


A Coreia do Norte e a China propuseram um possível fim do desenvolvimento de armas nucleares de Pyongyang se os EUA parassem de fazer manobras militares na fronteira do país. Por que isso não está sendo feito?

O objetivo da política americana vinha sendo a redução do programa nuclear norte-coreano, mas isso se provou impossível - e a ênfase agora parece ser em evitar um aumento desse poderio.

Não há sinais de que a Coreia do Norte tenha qualquer desejo de abrir mão de suas armas nucleares, muito pelo contrário. O país acredita que esta é a razão mais importante pela qual ele ainda não foi varrido do mapa.

A China parece disposta a encontrar uma solução diplomática para o problema e há alternativas que poderiam ser exploradas - por exemplo, uma limitação do programa nuclear da Coreia do Norte em troca de várias concessões.

Mas isso já foi tentado e fracassou. Este regime é quase único no mundo em seu nível de isolamento, paranoia e fraquezas, seja qual for a sua aparente força militar.


Que tratados são válidos na península coreana? Alguém seria obrigado a agir em caso de conflito?

Desde 1953, a Coreia do Sul tem um tratado de defesa mútua com os EUA, e Washington enviaria ajuda caso o país fosse ameaçado. Há cerca de 28,5 mil soldados americanos no país e aviões de guerra sofisticados sobrevoam o país regularmente.

Também há o Tratado de Amizade, Cooperação e Ajuda Mútua entre a Coreia do Norte e a China, de 1961, que tem alguns elementos de defesa. Não fica claro, no entanto, se a China estaria disposta a ir à guerra para defender o regime norte-coreano, especialmente se ele der início a hostilidades contra o sul.


Que chances a Coreia do Norte tem de se defender no caso de um possível ataque dos EUA e países aliados após mais um teste nuclear?

Acredito que ainda estamos longe de um possível confronto militar. Dadas as capacidades militares e o preparo da Coreia do Norte, qualquer guerra que tivesse início agora teria consequências devastadoras para a Coreia do Sul. Seul, a capital sul-coreana, está facilmente ao alcance da artilharia de Pyongyang.

As forças que os EUA enviaram até agora para a região - um grupo tático em um porta-aviões e um submarino equipado com mísseis de cruzeiro - manda uma mensagem, mas ainda não é o suficiente para dizer que os americanos estão dispostos a considerar um conflito hostil de fato.

Protesto na Coreia do SulDireito de imagemEPAImage captionAlguns sul-coreanos protestaram contra o sistema antimísseis Thaad, mobilizado pelos EUA na fronteira

É claro que, mesmo que a Coreia do Norte possa ter uma vantagem militar inicial, qualquer guerra faria com que o país enfrentasse a sofisticação tecnológica da máquina militar moderna dos EUA. O país asiático muito provavelmente perderia.

Mas o nível de destruição, tanto na Coreia do Norte quanto na Coreia do Sul, seria imenso, e isso sem considerar a possibilidade de Pyongyang decidir utilizar seu relativamente pequeno arsenal nuclear.


Se o sistema de defesa antimísseis Thaad (que os EUA posicionaram na Coreia do Sul) conseguir interceptar uma ogiva nuclear, o que acontece com o material físsil que está na ogiva?

Ainda não é claro se a Coreia do Norte realmente tem ogivas nucleares pequenas o suficiente para colocar dentro de seus mísseis - que é o objetivo de seu programa nuclear.

O sistema Thaad foi desenvolvido para interceptar mísseis durante sua fase final de voo, dentro ou perto da atmosfera terrestre, a cerca de 200 km. Especialistas acreditam que isso poderia mitigar o efeito de qualquer arma de destruição em massa, nuclear ou química.


O sistema Thaad é mesmo eficiente? Se ele conseguir neutralizar os mísseis da Coreia do Norte, seria mais provável um cenário de guerra terrestre?

O Thaad é um sistema que impressiona, mas não é um escudo completamente à prova de mísseis.

Seu deslocamento para a fronteira entre as duas Coreias funciona como um sinal diplomático e uma precaução prática. Ele poderia, por exemplo, tentar interceptar qualquer míssil errante da Coreia do Norte que esteja indo em direção à Coreia do Sul.

Mas, apesar de seu posicionamento na fronteira já ter começado, ainda não se sabe quando é que o sistema Thaad e seus radares poderosos estarão operacionais.

Soldado norte-coreanoDireito de imagemAFPImage captionChina já lutou ao lado da Coreia do Norte, mas ainda não se sabe se defenderia Jong-un contra os EUA


Se a Coreia do Norte afundar um navio americano e os EUA retaliarem, qual é a chance de a China se envolver? Isso poderia significar uma guerra nuclear global?

A China está ciente do aumento das tensões na região e está claramente interessada em reverter a crise.

O governo americano, por sua vez, tenta usar a preocupação de Pequim a seu favor, para que a China influencie o comportamento de Pyongyang.

A China está em uma posição difícil. O governo chinês não gosta muito do regime norte-coreano e de seu comportamento instável. Mas não quer ver este regime ser derrubado, em parte porque não ficaria satisfeito com uma Coreia unificada pelos EUA, mas também porque o colapso da Coreia do Norte poderia gerar uma onda de milhares de refugiados na China.

Durante o último conflito coreano, nos anos 1950, a China ajudou ativamente a Coreia do Norte, mas, atualmente, não há indicações de que apoiaria o regime imprevisível de Pyongyang num futuro conflito.


O quanto o cidadão norte-coreano comum sabe sobre a situação e sobre como os EUA estão aumentando suas defesas contra o país?

A Coreia do Norte é um país bastante fechado onde as pessoas sabem apenas do que lhes é informado pelo governo. A narrativa do governo é de que o país está rodeado por inimigos com armas nucleares e que quer estar preparado para o combate.

Por isso que Pyongyang buscar ter suas próprias armas nucleares e uma sociedade altamente militarizada.

O tipo de retórica que parte da Coreia do Norte às vezes soa como paródia de um país paranoico. Mas o país realmente se vê ameaçado. É provavelmente o país mais isolado do mundo, com pouco amigos.

Este é um regime que, apesar de poder construir mísseis, muitas vezes mal consegue alimentar seu povo. Qualquer solução de longo prazo para o problema da Coreia do Norte precisa, de alguma forma, compreender esta narrativa e garantir à população que o mundo não quer somente derrubar o regime do país.

A chave para isso é clareza política por parte dos EUA, assim como a disposição de tentar encontrar incentivos para abrir algum tipo de diálogo diplomático com Pyongyang, ao mesmo tempo em que é enviada uma mensagem forte de dissuasão de uma escalada militar.

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O que a soltura de Dirceu diz sobre os rumos da Lava Jato

A segunda turma do STF (Supremo Tribunal Federal) mandou soltar o ex-ministro José Dirceu, condenado a mais de 30 anos de prisão pelo juiz Sergio Moro, para que ele espere o julgamento dos recursos em liberdade.

Em sessão nesta terça-feira, os ministros Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli decidiram pela soltura - Celso de Mello e o relator da operação Lava Jato na corte, Edson Fachin, votaram pela manutenção da prisão, mas acabaram vencidos. A decisão foi tomada no mesmo dia em que a força-tarefa em Curitiba apresentou uma nova denúncia contra o petista.

Dirceu é o quarto preso da Lava Jato a ser liberado pelo STF nas últimas semanas - antes, obtiveram vitórias o ex-tesoureiro do PP João Claudio Genu e os empresários José Carlos Bumlai e Eike Batista.

De acordo com especialistas ouvidos pela BBC Brasil, a soltura do ex-ministro pode representar uma reversão de tendência em decisões da corte em relação às prisões preventivas da Lava Jato. Isso poderia indicar que as decisões de Moro de manter acusados detidos, antes confirmadas em sua maioria pelas instâncias superiores, agora correm risco.

"Isso pode ser uma volta para os fundamentos mais ortodoxos da prisão preventiva", afirma o professor Rubens Glezer, da Escola de Direito da FGV/SP (Fundação Getulio Vargas de São Paulo).

A prisão preventiva, por ocorrer sem que haja flagrante ou condenação de segunda instância, precisa estar justificada em algumas situações excepcionais, como risco de o investigado atrapalhar as investigações ou fugir do país. Advogados de alvos da operação têm acusado a Lava Jato de afrouxar essas regras para estender as prisões e obter delações, o que os procuradores negam.

"Eu acho que essas justificativas um pouco mais alargadas, um pouco mais heterodoxas que a operação Lava Jato trouxe não estariam mais sendo aceitas (por instâncias superiores)", disse Glezer.

Isso faria, na visão do professor, com que se exija mais esforço dos procuradores para prosseguir com as prisões preventivas que, na sua opinião, contribuíram com as delações premiadas, um dos motores da Lava Jato.

Caso singular?

Para Glezer, a decisão favorável a Dirceu vai ao encontro das que determinaram a liberação dos outros acusados - algo do qual o presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), José Robalinho Cavalcanti, discorda.

"O caso do Dirceu tem algumas complicações. Ele continuou praticando crimes, mesmo condenado na ação do mensalão e já iniciada a operação Lava Jato", afirmou ele. "Isso (a soltura) pode ser uma sinalização a favor da impunidade."

José DirceuDireito de imagemMARCELLO CASAL JR./AG. BRASILImage caption'Isso (decisão do STF) pode ser uma volta para os fundamentos mais ortodoxos da prisão preventiva', disse professor de direito da FGV

Para o procurador, Dirceu representa não só uma liderança entre quem praticou delitos investigados pela operação, mas também é alguém que continuou praticando crimes enquanto cumpria pena pelo mensalão - escândalo que envolveu a compra, com recursos desviados, de apoio parlamentar ao governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em termos leigos, disse ele, a soltura do ex-ministro da Casa Civil traz a pergunta: se Dirceu não pode ser preso preventivamente, quem pode?

Robalinho Cavalcanti vê diferenças entre o caso do petista e os dos outros acusados soltos recentemente: Bumlai tem câncer terminal e Genu estava preso havia muito tempo e não teria a capacidade de afetar as investigações, afirmou, lembrando as decisões recentes do STF.

Roberto Podval, advogado que representa Dirceu, tem avaliação diferente.

"Foi um julgamento interessante, que demonstra que o posicionamento do Supremo hoje é de que as prisões preventivas estão sendo exageradas."

'Reversão de tendência'

Glezer avalia que a "reversão de tendência" no STF ocorre, na verdade, desde a morte, em janeiro, do ministro e então relator da Lava Jato na corte, Teori Zavascki.

"Quando o ministro Fachin assume a relatoria da Lava Jato, existe uma mudança na dinâmica dos julgamentos da Segunda Turma. O ministro Teori Zavascki conseguia exercer uma autoridade nesses julgamentos que não tem sido vista, até agora, ser exercida do mesmo jeito pelo Fachin", explicou.

Para o professor da FGV, a morte de Teori marcou uma transferência informal de liderança na Segunda Turma para Gilmar, que tem se posicionado pelo afrouxamento das prisões preventivas.

Em fevereiro, após o sorteio que definiu Fachin como novo relator da Lava Jato, Gilmar declarou:

"Acho que temos um encontro marcado com as alongadas prisões que se determinam em Curitiba. E nós temos que nos posicionar sobre esse tema que, em grande estilo, discorda e conflita com a jurisprudência que desenvolvemos ao longo desses anos."

Ministro Edson FachinDireito de imagemROSINEI COUTINHO/SCO/STFImage captionFachin votou pela manutenção da prisão, ao lado de Celso de Mello; ambos acabaram vencidos

'Tendência liberal'

Já o ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto, que presidiu a corte durante o início do julgamento do mensalão, afirmou não acreditar que o tribunal esteja libertando mais presos que antes.

"Há ministros que têm uma tendência mais liberal", disse ele, que argumentando que a corte já tem um histórico de altas taxas de concessão liberdade a presos preventivos.

O ministro acrescentou que, quando presidiu a Segunda Turma do STF, em 2012, fez um levantamento que já havia demonstrado isso: o habeas corpus era concedido em cerca de 33% dos casos, o que representaria um índice alto.

"Na época, éramos eu, o Gilmar, o Celso de Mello, a Ellen (Gracie) e Joaquim Barbosa", disse, sobre a Segunda Turma. Celso e Gilmar permanecem no colegiado até hoje.

Independentemente do mérito da decisão da corte pela soltura do ex-líder petista, o promotor Roberto Livianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção, avalia que a soltura de Dirceu tem um impacto ruim sobre a percepção que a sociedade tem sobre a impunidade.

"Durante muito tempo no país, acreditou-se que a Justiça apenas alcançava as pessoas dos extratos mais humildes, as pessoas sem qualquer poder. Com o processo do mensalão e com a Lava Jato, nós tivemos situações que claramente demonstram que pessoas detentoras de parcelas importantes do poder político e econômico foram alcançadas pela lei", disse.

"Ou seja, o princípio da isonomia da lei sai do papel e se torna realidade concreta."

Ele afirmou que essas solturas causam a impressão de que a Justiça está sendo benevolente com poderosos. "Esse é um juízo leigo que naturalmente as pessoas fazem, eu não estou entrando no mérito se está correto ou não está correto."

Ministro Gilmar MendesDireito de imagemROSINEI COUTINHO/SCO/STFImage captionAo aceitar habeas corpus, Gilmar Mendes direcionou palavras duras a procuradores da Lava Jato

Nova denúncia

José Dirceu está preso desde agosto de 2015, quando foi alvo da 17ª fase da Lava Jato, chamada de "Pixuleco".

Desde então, foi condenado duas vezes por Moro. A primeira sentença, de 20 anos de prisão, foi determinada em maio do ano passado pelos crimes de lavagem de dinheiro, corrupção passiva e organização criminosa. Em março deste ano, novo julgamento resultou em outra pena, desta vez de 11 anos, por corrupção passiva e lavagem.

Ele poderá voltar à prisão caso tenha no mínimo uma de suas condenações confirmadas pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, corte responsável por avaliar, em segunda instância, as decisões tomadas por Moro.

No caso do mensalão, Dirceu havia sido condenado a 7 anos e 11 meses de prisão por corrupção ativa e ficou 354 dias preso antes de ir para prisão domiciliar. Como trabalhou e estudou, conseguiu abater 142 dias da pena.

Ao apresentar a nova denúncia nesta terça-feira, o procurador Deltan Dallagnol disse a jornalistas que a acusação já estava sendo elaborada, mas a força-tarefa resolveu antecipá-la devido à sessão que decidiria o futuro de Dirceu no STF.

No julgamento, Gilmar criticou a medida tomada pelos procuradores.

"Há pessoas que têm compreensão equivocada do seu papel. Não cabe a procurador da República pressionar, como não cabe a ninguém pressionar o Supremo Tribunal Federal, seja pela forma que quiser. É preciso respeitar as linhas básicas do Estado de Direito. Quando quebramos isso, estamos semeando o embrião do viés autoritário", afirmou ao apresentar seu voto.

Dallagnol reagiu à decisão da corte em uma postagem no Facebook.

"O que mais chama a atenção, hoje, é que a mesma maioria da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal que hoje soltou José Dirceu - ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski - votaram para manter presas pessoas em situação de menor gravidade, nos últimos seis meses", escreveu.

"Fica um receio. Na Lava Jato, os políticos Pedro Correa, André Vargas e Luiz Argolo estão presos desde abril de 2015, assim como João Vaccari Neto. Marcelo Odebrecht desde junho de 2015. Os ex-diretores (da Petrobras) Renato Duque e Jorge Zelada desde março e julho de 2015. Todos há mais tempo do que José Dirceu."

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